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Um dos maiores problemas no câncer não é orgânico, mas sim o impacto psicológico causado, tanto no curto quanto no longo prazo. Apesar dos avanços da medicina no tratamento e na detecção precoce em oncologia, temos muitos vestígios da noção que nossos avós possuíam sobre a doença. Os antigos viam o câncer como “doença ruim”, sinônimo de morte, e o impacto cultural desta perepção é sentido de maneira constante em nosso cotidiano.

Como já mencionei em textos anteriores, dá-se o título “curado” para o paciente que sobreviveu 5 anos sem doença após o fim do tratamento. Esse tempo é  algo arbitrário, pois nunca ninguem está isento de riscos, seja ele um câncer que “volta”, ou uma doença “nova.” Basta estarmos vivos para termos chance de adoecer, é o que digo aos meus pacientes. No lado positivo, sabemos que estatisticamente após 5 anos o risco cai a seus níveis mais baixos, e sim, podemos afirmar com tranquilidade para a maioria de nossos pacientes que a cura ocorreu. O que ocorre depois dessa (boa) notícia?

A vida depois da cura não é a mesma que a antes da doença. Com meus (ainda) poucos anos na área, começo a ter meus primeiros pacientes se curando pela definição médica da palavra. Eles nao são as mesmas pessoas que conheci ha 6 anos atrás. São pessoas geralmente mais fortes, mais resolvidas, dão mais valor à sua vida. São tambem mais receosos, como uma “Cicatriz” que fica para sempre em sua mente e seu espírito. Em maior ou menor grau, todos eles se lembram do que passaram, e carregam eternamente consigo o peso dessa batalha.

Algumas cicatrizes orgânicas também existem, e variam de doença para doença, de pessoa para pessoa. Alguns exemplos corriqueiros: a sequela da mastectomia (a retirada da mama), que pode causar dor crônica e limitação de movimentos. A colostomia (o intestino ligado a uma bolsa que fica presa na parede do abdome), que traz problemas sociais e funcionais. Temos também a fadiga crônica, dor recorrente, inchaço, etc. Obviamente com o avanço dos tratamentos essas sequelas vem se reduzindo em frequencia e intensidade de maneira significativa, mas estao longe de desaparecer por completo

Como combater esses problemas de longo prazo? Para mim só ha uma resposta: Apoio multidisciplinar

Uma deficiência que temos no meio da saúde é o apoio de longo prazo para esses pacientes. Isso vale tanto para o sistema público quanto para o privado. Idealmente os sobreviventes deveriam ter a oportunidade de serem acompanhados por especialistas de maneira duradoura.  Conheço pessoas com colostomia há anos, que aprenderam  a se aceitar e a ter uma vida normal, apesar de sua nova condição. Tenho outros no entanto que sofrem demais com a bolsa. O auxilio tem que vir com uma equipe de saúde coesa. Enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos… todos tem uma parcela extremamente importante na reabilitação fisica e psicológica desses indivíduos que ja passaram por tantas batalhas.

O que quero concluir é que, embora a maior batalha ja tenha sido vencida, a guerra continua sendo travada dia a dia. O sobrevivente de câncer é um herói, só ele sabe o que teve que passar. Nós só podemos imaginar, e dar todo apoio que ele merece. A vida após o câncer existe, e pode ser muito boa, só precisamos todos trabalhar juntos para que isso aconteça.

Essa é uma das perguntas que mais ouço.

Nunca consegui explicar muito bem então vou tentar escrever o que são minhas respostas. Digam-me depois se deu para entender…

Um dos motivos que ouço de outros colegas é que em algum momento tiveram um parente com câncer e, com sua morte ou sofrimento, veio a vontade de combater a doença, da melhor maneira possível. A escolha pela oncologia seria algo coerente e justificado nesta situação. Minha avó materna morreu de câncer, mas tenho poucas recordações dela. Não conseguiria dizer que é por causa disso…

Outro motivo pelo qual alguns escolhem a área é o financeiro. Hoje a medicina como um todo é cada vez mais desvalorizada, mas especialidades muito específicas, como a oncologia, ainda tem um mercado interessante.

Pensando como nicho de trabalho, não há como discutir que o envelhecimento da população, por exemplo, é um indicador de um progressivo aumento das doenças crônicas, como o câncer. Na minha opinião, esse é o motivo mais triste de todos que possam levar a decisão de abraçar a profissão.

Por ser uma atuação emocionalmente muito impactante (tanto para o paciente quanto para o profissional) ,basear-se puramente em questões financeiras é um fator crítico para o surgimento de profissionais desgostosos, frios e pouco humanos. Oncologia precisa de pessoas com o perfil e motivação certa, e dinheiro por si só não é motivo suficiente.

É nessa questão do perfil que eu começo a achar os MEUS motivos.  O oncologista precisa ter a cabeça no lugar sem ser muito passional. Tem que entender o sofrimento do outro, exercitar a empatia ao mesmo tempo não sofrer junto, ou pelo menos na mesma intensidade, a dor do paciente e sua família. Tem que conseguir passar o dia em contato com muitas histórias pesadas e chegar em casa feliz, pronto para encontrar a família, passear com o cachorro, fazer coisas normais. 

Obviamente, todo mundo tem seus dias horrorosos. Somos afetados pelo que nos cerca, e às vezes, mesmo para nós que estamos “habituados”, alguma coisa passa por nossas defesas. Quem não consegue elaborar isso de maneira adequada pode ter grandes impactos em sua qualidade de vida, e as vezes até das pessoas à sua volta.

Consigo fazer isso tudo? A melhor resposta que tenho é “boa parte do tempo.” Tem gente que sabe fazer isso melhor que eu, outros muito menos. Não sei se isso é treino, convivência ou formação, mas fato é que (como todas as profissões) sempre existirão as pessoas que tem vocação para a área e as que não tem.

Por ultimo… Lembro-me da minha entrevista para a residência de oncologia em Porto Alegre. Meu antigo professor questionou os meus motivos, e sem pensar muito respondi algo mais ou menos assim:

O paciente oncológico revela o que há de melhor nas pessoas. É nele que você vê a maior coragem, a maior determinação, a maior honestidade. Não existe enganação, não existe dissimulação, mesmo que se tente. As emoções, boas e ruins, estão à mostra, e cada pequena vitória é motivo de comemorar.

Agora, com meus poucos 6 anos de atuação, talvez possa dizer mais – A oncologia mostra que às vezes, mesmo perdendo um paciente, você pode vencer. Fico extremamente feliz quando dou alta para uma pessoa, mas fico realmente emocionado quando uma família, ainda de luto pela perda de um ente querido, agradece por eu ter feito o meu melhor, como médico e ser humano. Isso não tem preço.

Hoje falarei sobre a Sra Wanda Rossi de Carvalho. Sei que não posso falar de pacientes com os nomes reais, mas não comentarei sobre a doença dela. Ela merece o crédito de sua história.

Dona Wanda tem 94 anos. É uma poetisa. Fez o hino de Bandeirantes (uma cidade aqui do lado de Londrina). Presidente da União Brasileira de Trovadores- seção Bandeirantes.

A cada 6 meses comparece no consultório. Reclama da demora (independente se estou atrasado ou não). Chama-me de bravo (por mais que me esforce para não ser, pelo menos não com ela…). Fala que está muito idosa, mas chega andando, a cabeça ótima.  Sempre me entrega um poema novo. Na hora de ir embora digo que o retorno é em 6 meses, e ela diz que vai estar morta até lá, porque está muito velhinha. Isso se repete já faz 6 anos.

Desta vez deu-me um poema sobre o natal, mesmo sendo na época em que estamos. Isso porque acha que não me verá mais. Igual o que sempre faz desde que a conheço…

Presente de Natal

Sonhei dar-te um presente,

Mas não sei o que darei…

Tens riqueza, tens amigos,

E até mesmo o que eu não sei.

Lembrei de dar-te a saudade

Mas com certeza já a tens,

Pensei na felicidade

Mas não mais a encontrei!

À venda estava a piedade

Mas esta sei que já tens…

E se eu te desse a verdade

Presente de grande poder.

São todos eles tão belos…

Se guardados com carinho,

Mesmo grande ou pequenino

Faz do teu sonho um menino!…

Um presente nobre me ocorre:

E se eu te desse o amor?

Dentro deles guardarias

Tudo bem que a vida for!!!

Obrigado pelo poema, dona Wanda. Até o próximo semestre.

Olá! Sou eu de volta. Quase dois anos depois do meu último post.

Primeiro, vou falar do que tem acontecido na minha vida: Vou casar, estou montando minha casa, continuo atendendo na clínica, sigo com meus (muitos) problemas no atendimento público e também no privado. Não acho que mudei minha atitude frente aos pacientes, não acredito que fiquei mais frio nem mais fechado como muita gente supõe que acontece com o profissional do nosso ramo.

               Estou mais experiente, lógico. Com o tempo, vamos ficando mais sábios, não é? De pessoas mal-intencionadas a conflitos emocionais/familiares associados ao câncer, a convivência com esses dramas faz com que você fique mais… eficiente (será essa a palavra? Não sei…) em resolver muita coisa que não está descrita nos livros. Só vivendo o que a gente vive para aprender a lidar com esse tipo de problema.

               Continuo jogando vídeo-game (acho que nunca falei isso), continuo sendo bobo com minha noiva, com meus amigos. Continuo cuidando dos meus 5 cachorros e dois gatos. São essas pequenas coisas que me fazem permanecer “são”. Perdi um dos meus queridos amiguinhos recentemente (vai com Deus Arnaldinho), mas a vida segue em frente. Eu, mais que todos, deveria saber disso ,não é?

               Até hoje não sei exatamente o motivo que me fez parar de escrever. Acho que é tempo. Não que minha vida seja absurdamente corrida, mas o tempo que tenho acabo sempre usando para meus hobbies, família e amigos. Na época, escrever era muito bacana, mas com o tempo você vai cansando um pouco. O que me animava era o retorno das pessoas que liam os textos. Era sempre positivo. Não eram muitos, mas muito significativos.

               O que me faz pensar em retornar? Depois de muito tempo resolvi dar uma olhada no site. Surpreendi-me com uma série de comentários esperando minha aprovação. Gente elogiando, criticando, pedindo informação… e o mais impressionante: o volume de visitas não só como cresceu como TRIPLICOU no período. Sem eu escrever NADA.

               Isso me fez pensar bastante. O que escrevi talvez tenha algum impacto, e aparentemente em um grupo crescente de pessoas. Com isso em mente, meio que me sinto responsável em continuar. Vou tentar, pelo menos.

               Não me deixem parar, ok?

 

Bruno

 

P.S: Ah! Uma ultima coisa. Peço desculpas a todos que me enviaram perguntas e que não respondi. Tentarei reparar minha falta daqui para a frente.

Achei importante criar esse texto, afinal escrever sobre nosso cotidiano e nossas atribuições está no título do blog. Nada mais justo que eu tente esclarecer alguns pontos.

Como mencionei em alguns posts, o tratamento do câncer é multidisciplinar. São várias as áreas médicas, como o oncologista clínico, o cirurgião,o especialista em dor, o radioterapeuta, entre (muitos) outros. Existem também as áreas que não são médicas, mas igualmente importantes: enfermagem, fisioterapia, nutrição, fonoaudiologia, psicologia, farmácia… certamente estou esquecendo algumas e por isso peço perdão antecipadamente.

Irei ater-me às competências médicas. A primeira causa de confusão está relacionada às nossas capacidades cirúrgicas. O fato é que não somos cirurgiões. O oncologista clínico se atém a direcionar o tratamento sistêmico do paciente. Em outras palavras, todo o tipo de recurso que irá afetar o organismo como um todo,  não uma área específica do corpo humano. Isso nos diferencia do cirurgião ou do radioterapeuta, cujas competências são principalmente em controlar a região doente da pessoa. Arrisco-me em ser muito simplista nessa definição, mas por hora basta.

Tratar todo o organismo de um paciente envolve principalmente medicações. A quimioterapia é a mais conhecida. Trata-se da prescrição de fármacos voltados para cada tipo de doença, e administrados em forma de um “soro” pela veia. O processo em si não tem segredos. Outros remédios que podem administrados da mesma maneira são as drogas alvo (ou agentes moleculares, ou agentes biológicos… os nomes são inúmeros), que são medicações muito mais novas, avançando a passos largos na ciência médica. Também fazemos uso de imunoterapia e hormonioterapia. Alguns desses tratamentos são comprimidos, outros são injeções. Deve-se notar que a via de administração não é tão importante quanto o conhecimento necessário na hora de se decidir QUAL modalidade se lançará mão.

Todos sabemos que tratamentos oncológicos tem seu custo em termos de efeitos colaterais e qualidade de vida, por isso a decisão do tratamento nunca pode ser feita de maneira inconseqüente. É por isso que essa é uma especialidade que demanda muito estudo durante a formação e principalmente (e mais difícil) DEPOIS de formado, pois é uma das áreas que mais mudam e evoluem com o passar do tempo, e admito que por vezes é muito difícil estar atualizado em tudo a todo o tempo

Por fim, mas não menos importante, uma atribuição que eu vejo, e particularmente procuro assumir, é a de ser um ponto de referência ao paciente. Não são raras as pessoas que passam por três, quatro, cinco especialistas no decorrer de seu tratamento. Esse elevado numero de médicos normalmente causa uma confusão importante na já fragilizada mente do indivíduo. Na hora da crise, fica muito difícil saber quem procurar: o cirurgião? O radioterapeuta? O oncologista? Em geral, por estar acompanhando o paciente de perto com mais freqüência que os colegas, em especial nos períodos de quimioterapia, o oncologista consegue “gerenciar” a situação com mais facilidade. Obviamente não saberemos como operar alguem com uma complicação, mas com freqüência iremos saber como devemos nos portar frente a um problema, e isso nos momentos difíceis faz toda a diferença.

Apesar de todos os estudos e pesquisas envolvidos, a verdade é que a medicina continua não sendo uma ciência exata. Tomar antibióticos para infecção sempre funciona?  Não. A oncologia, que aborda uma doença tão complexa como o câncer não seria diferente, ao contrário, é uma das áreas que mais trabalha com possibilidades ( e não certezas).

É exatamente por isso que eu procuro sempre ser muito claro na hora de indicar qualquer tratamento ou explicar sobre alguma patologia. Não podemos nunca garantir resultados.

Onde estão as incertezas? Basicamente em todo lugar.

Vamos a um exemplo: a paciente foi submetida a uma cirurgia curativa, onde toda a doença foi removida. Ela está curada? Não sei. Em oncologia, definimos cura quando a pessoa passa 5 anos sem apresentar recidiva do câncer. É um valor arbitrário. Sabemos que após 5 anos as chances do problema retornar reduzem bastante, mas nem por isso a pessoa está isenta de riscos (até porque nenhum de nós está). O que oncologistas clínicos fazem nessa situação é aumentar as possibilidades de sucesso, por vezes de maneira extremamente relevante, por vezes muito discreta.

E o câncer que não tem cura? As incertezas também existem. O intuito nesta situação é “estacionar” a doença, controlar a dor, reduzir seu tamanho. Sempre funciona? Longe disso. Obviamente sempre iremos buscar aquilo que proporcionará mais chance de tudo dar certo. Em caso de falha geralmente temos uma ou duas opções alternativas, mas daí as o raciocínio  começa tudo de novo.

Fato é, como oncologistas o máximo que conseguimos fazer é trazer as probabilidades a favor do paciente. Por vezes as chances de sucesso são altas e mesmo assim as coisas dão errado. Ainda bem que também existem os casos “quase impossíveis”, mas que ainda assim dão certo. E é por isso que o oncologista tem que ser eternamente um otimista…

Estive no começo do mês em Chicago participando do congresso anual da sociedade americana de oncologia clinica (em inglês a sigla é ASCO).  Congressos de medicina, a bem da verdade, não são tão interessantes a ponto de me inspirarem a criar um post, mas a ASCO merece, e por vários fatores.

O primeiro deles é a imensidão. Este congresso é feito no McCormick place, um centro de eventos gigantesco, com 173 salas de apresentação, e 26 milhões de pés quadrados de área (se não errei na conta equivale a 241.000 m2). Tal extensão força o participante a se programar com muita antecedência: não era difícil perder uma sessão simplesmente porque  estava muito longe de sua localização atual e não daria tempo para chegar antes de seu inicio.

O segundo ponto: o número de pessoas. Ouvi dizer que foram perto de 41 mil inscritos, incluindo staff, representantes das indústrias, médicos, membros de ONGs, etc. Não sei se esse número é o oficial, mas a sensação era a que eu estava no meio de um formigueiro. Não foram poucos os colegas que soube que estavam presentes, mas não os encontrei. Foi muito interessante esse encontro de culturas, com gente de todo o mundo. Médicos de turbantes e kippahs, oncologistas com as mais variadas vestimentas, línguas e atitudes, mas todos lá com o interesse de presenciar a ciência produzida e levá-la de volta para casa

A ciência é o foco do congresso. Lá são mostrados os resultados de inúmeros estudos produzidos em todo o globo. Não é o único grande congresso onde trabalhos científicos importantes são apresentados (atualmente existe a ASCO gastrointestinal, ASCO ginecológico, ASCO pulmão, etc, que acabou por fragmentar um pouco o conhecimento), mas mantem importancia significativa no cenario científicopelo numero e qualidade  de estudos apresentados.

Como todo evento anual, existem encontros onde são expostas grandes descobertas e achados, e outros menos relevantes em termos de inovação. Esse ano foi interessante, especialmente para o melanoma. Como esse blog é voltado para o leigo, não entrarei em detalhes, mas existem algumas coisas que devem ser colocadas em perspectiva: a ciência na oncologia anda a passos largos, sem duvida. Constantemente ouvimos sobre tecnologias que impactam no tratamento. Por outro lado, não existem milagres (pelo menos não produzidos pelo homem).

São raros os encontros deste tipo que revelam descobertas que mudam drasticamente a história natural de uma doença. Aquele câncer que impõe uma sobrevida curtíssima ao paciente, dificilmente será tão suscetível a uma droga nova que o tornaria  uma doença de fácil tratamento. Infelizmente as coisas  funcionam assim. O mais próximo da realidade são pequenos aprimoramentos, porem repetidos e contínuos. Os oncologistas frequentemente são motivo de brincadeiras pelos colegas, por sempre procurar tratamentos que aumentam pouco tempo de vida, ou trabalham com porcentagens de sucesso muito baixas. As pessoas se esquecem que a SOMA desses resultados ao longo do tempo é que faz a diferença, e isso sim é muito relevante

(OBS- perdões, mil perdões. Consultorio, congresso e um laptop quebrado me atrasaram demais para retomar os posts. Prometo que tentarei ser mais consistente no blog!)

Essa dúvida é muito comum. Logo após comunicarmos o diagnóstico de câncer para a pessoa, vem a enxurrada de questionamentos e medo, independente do tipo da doença.

A primeira pergunta que ouço geralmente é: “que tipo de câncer?”

Ao indagar o paciente o que ele exatamente quer saber com isso, tenho a resposta “é o câncer maligno ou benigno? É o carcinoma? É do tipo agressivo?”

Então comecemos pelo básico:

Todo câncer é maligno. Sem rodeios. O que significa ser “maligno”? De maneira bem simplificada é a capacidade de gerar metástases ou infiltrar pelos tecidos do corpo. Existem tumores chamados “benignos” que podem crescer até níveis perigosos, mas sua “benignidade” é definida por não serem capazes de se espalhar para outros órgãos. Vale lembrar que existem tumores malignos (que a parrtir de agora chamaremos de câncer) que apesar de serem reconhecidos como tal, muito raramente causam metástases, como por exemplo, as neoplasias de pele que não são melanomas.

O nome do câncer costuma ser bem complicado e ajuda muito pouco no entendimento do leigo, e até por causa disto não ficamos falando esses tipos de termos. Para o leigo, geralmente basta saber a origem da doença (se veio da mama, do cólon, pulmão, etc.) e não o nome e sobrenome da neoplasia. Muita gente se assusta entendendo que uma das nomenclaturas, o carcinoma, significa que a doença é mais grave, mas isso não é verdade.

Nomes para o câncer servem para nos ajudar a entender de onde que ele veio em um sentido celular. O tumor veio de células de revestimento? Carcinoma. Veio de glândula? Adenocarcinoma. Veio de músculo ou osso? Sarcoma. E por aí vai, em uma infinidade de alcunhas, uma mais complicada que a outra. Cada doença tem seu comportamento baseado em inúmeros fatores, mas seu local de origem e de que tipo de célula ele veio são muito importantes para definir como será a historia desta doença.

Por fim a agressividade. Existem maneiras de mensurar o quão agressivo é um tumor. Na oncologia, agressividade reflete o quão rápido as células de uma doença estão se multiplicando, e não necessariamente se a chance de cura é menor ou maior. Como exemplo, os linfomas mais agressivos costumam ter mais potencial de cura que os menos agressivos. Tumores que aumentam rápido de tamanho geralmente tem células mais agressivas, e a recíproca é verdadeira.

Espero ter elucidado mais um pouco sobre a doença, e espero voltar a escrever em um intervalo mais curto de tempo até o próximo post! Qualquer dúvida, só me questionar nos comentários!

L. foi encaminhada para mim porque tinha um câncer de mama. Tinha 30 e poucos anos, era bonita, professora, tinha silicone, filhos novos e uma família feliz. Pela posição da doença, o silicone atrapalhou o diagnostico de inicio no seu caso, e quando chegou ao meu consultório percebi que a lesão era grande. Por causa disso optamos por fazer quimioterapia pré-operatoria, com a intenção de reduzir a lesão e facilitar a cirurgia

Começamos os esquemas iniciais de tratamento. Veio o mal estar e a queda de cabelo, sem muitas náuseas ou vômitos, felizmente. Ela era vaidosa, e a perda de cabelo a afetou bastante. Era difícil medir a lesão, mas parecia que estava melhorando. No meio do tratamento, optamos por indicar a cirurgia, pois tínhamos dificuldade em precisar se estava melhorando ou piorando.

A cirurgia retirou toda a lesão, mas vimos que a quimioterapia estava fazendo pouco efeito. Optei por mudar o esquema, sabendo que era um tumor mais agressivo do que se esperava. O esquema teoricamente era mais tranqüilo em termos de efeitos colaterais, mas L. não tolerou bem essas novas medicações. Sentia dores no corpo e diarréia, mas manteve-se firme no tratamento.

30 dias após o fim da quimioterapia, L. estava aguardando uma medicação que não é fornecida pelo SUS, e por isso esperava uma liminar na justiça. O remédio havia acabado de ser liberado. Neste mesmo dia, L. começou a ter sangramentos, ficou amarela, apresentou inchaço, vômitos mais sérios. Eu a internei, e nos exames vimos que a doença já havia voltado, em menos de um mês do fim do tratamento. O fígado estava parando de funcionar. Chamei vários colegas especialistas para ajudar nas intercorrencias; gastro, hemato, cirurgião torácico, vascular…

L. morreu alguns dias depois de sua internação. Tenho plena convicção que todas as medidas que poderiam ser feitas foram feitas, e se a historia começasse de novo, eu não teria muito o que fazer diferente. Mas isso dificilmente é consolo quando perdemos alguem dessa maneira.

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O Sr. R é uma figura. Sempre foi animado, era pedreiro, um homem simples, mas sempre muito divertido. Era o que a mulher me falava, pois no primeiro dia de consulta, o Sr R não conseguia falar, nem engolir nada, nem abrir a boca. Depois de muitos anos de cigarro, ele passou a apresentar um câncer de língua avançado. Em poucos meses aquela feridinha perto da língua cresceu, fixou a língua na base da boca, ulcerou e impedia que qualquer coisa passasse por ali

O tipo de doença era bem agressivo. Ele também tinha gânglios comprometidos, o que implicava em uma chance de cura ainda menor. O fato de estar desnutrido devido impossibilidade de comer também não ajudava

Foi indicado a ele quimioterapia e radioterapia. Não foi fácil, pois teve que usar uma sonda para se alimentar. A radioterapia escurece a pele, seca a saliva, irrita a garganta. A quimioterapia provocou náuseas e fraqueza. Uma ou duas vezes os familiares perguntaram se não valia a pena parar o tratamento, de tão fraco que ele estava.

2 meses após o tratamento, o Sr R entrou no meu consultório 6 kg mais pesado. Ele entrou me mostrando a língua. Não como um paciente, mas como uma criança feliz sabendo que esta fazendo uma travessura. Não havia mais doença de qualquer espécie. Voltou a comer, a falar normalmente. Eu sabia que mesmo tendo melhorado, é o tipo de doença que teria uma alta chance de voltar, e dificilmente curaria. Isso foi há 4 anos atrás

Hoje, o Sr R entrou no meu consultório. Ele ainda me mostra a língua quando o cumprimento, sempre feliz.

Os temas de bioética são sempre interessantes porque são fontes de muita discussão. Uma situação que o oncologista enfrenta diariamente é o embate entre a decisão médica e a autonomia do paciente.

Mas o que significa autonomia?  Segundo a Wikipédia: “Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.”

Na bioética, é um dos quatro princípios (autonomia, não-maleficiência, beneficiência e justiça). Significa que cada um é responsável por suas próprias decisões e tem autoridade sobre seu próprio corpo. É engraçado que esse conceito não existia nos primórdios da medicina, provavelmente pelo posto de “semi-deus” que o médico ocupava em tempos antigos, que tinha poder total sobre o paciente, que ocupava um papel ainda mais fragilizado que o de hoje. Por séculos, o médico foi o centro da medicina. Hoje, claramente é o paciente.

Apesar de extensamente discutida, ainda temos muitas dificuldades para lidar com questões que envolvam autonomia. Explico: muito aprendemos sobre as doenças. Passamos a entender de medicações, evolução natural de doenças, de indicações de tratamentos, nomes complicados e procedimentos mais complicados ainda. O que quase ninguém se preocupa em aprender é como lidar com PESSOAS.

Pense na seguinte situação. Você tem em suas mãos um tratamento que irá aumentar as chances de cura de um doente, ou ao menos aliviar seu sofrimento. Você tem trabalhos científicos, tem experiência e sabe que a indicação do que você está oferecendo é precisa. No consultório, você expõe sua proposta de tratamento para o paciente, com a certeza que ele alegremente irá concordar com sua idéia. Porém, nem sempre isso acontece. Por diversos motivos (medo, insegurança, religião, resignação, ignorância, família…) o paciente pode optar em não seguir sua proposta.

Em um primeiro momento você pode achar isso ridículo. Como recusar algo que você sabe que irá te fazer bem? Acontece que nem sempre é tão simples: Existirá aquele que não aceita uma cirurgia que o acabará prendendo a uma bolsa de colostomia. Outro não aceitará uma amputação. Outro não concordará com um tratamento quimioterápico que faz cair cabelos. A linha que cada um aceita cruzar não é do médico para traçar, e aí que vem o embate médico-paciente.

Se por um lado o médico sofre porque está vendo o índivíduo recusar uma proposta honesta de tratamento, por outro lado ele tem que entender que ele não é DONO da pessoa que está sentada à sua frente no consultório. Seu papel, no final das contas, é de ser seu parceiro, orientando-o e ajudando-o no que puder. As decisões sempre serão em conjunto, mas o “sim” ou o “não” finais sempre serão dados pelo paciente.

Com meus poucos anos na área, aprendi que temos muita força na hora de influenciar decisões, mesmo quando inicialmente a pessoa aparenta estar contra a sua proposta. É nossa função explicar todas as vantagens e conseqüências de cada caminho escolhido, guiando o paciente a escolher a melhor alternativa. No entanto, não podemos esquecer que não somos os donos da verdade, e por isso devemos dar apoio e compreensão, mesmo quando as decisões não são exatamente as que escolheríamos para nós mesmos.