Posts Tagged ‘morte’

L. foi encaminhada para mim porque tinha um câncer de mama. Tinha 30 e poucos anos, era bonita, professora, tinha silicone, filhos novos e uma família feliz. Pela posição da doença, o silicone atrapalhou o diagnostico de inicio no seu caso, e quando chegou ao meu consultório percebi que a lesão era grande. Por causa disso optamos por fazer quimioterapia pré-operatoria, com a intenção de reduzir a lesão e facilitar a cirurgia

Começamos os esquemas iniciais de tratamento. Veio o mal estar e a queda de cabelo, sem muitas náuseas ou vômitos, felizmente. Ela era vaidosa, e a perda de cabelo a afetou bastante. Era difícil medir a lesão, mas parecia que estava melhorando. No meio do tratamento, optamos por indicar a cirurgia, pois tínhamos dificuldade em precisar se estava melhorando ou piorando.

A cirurgia retirou toda a lesão, mas vimos que a quimioterapia estava fazendo pouco efeito. Optei por mudar o esquema, sabendo que era um tumor mais agressivo do que se esperava. O esquema teoricamente era mais tranqüilo em termos de efeitos colaterais, mas L. não tolerou bem essas novas medicações. Sentia dores no corpo e diarréia, mas manteve-se firme no tratamento.

30 dias após o fim da quimioterapia, L. estava aguardando uma medicação que não é fornecida pelo SUS, e por isso esperava uma liminar na justiça. O remédio havia acabado de ser liberado. Neste mesmo dia, L. começou a ter sangramentos, ficou amarela, apresentou inchaço, vômitos mais sérios. Eu a internei, e nos exames vimos que a doença já havia voltado, em menos de um mês do fim do tratamento. O fígado estava parando de funcionar. Chamei vários colegas especialistas para ajudar nas intercorrencias; gastro, hemato, cirurgião torácico, vascular…

L. morreu alguns dias depois de sua internação. Tenho plena convicção que todas as medidas que poderiam ser feitas foram feitas, e se a historia começasse de novo, eu não teria muito o que fazer diferente. Mas isso dificilmente é consolo quando perdemos alguem dessa maneira.

*************************************************************************************************

O Sr. R é uma figura. Sempre foi animado, era pedreiro, um homem simples, mas sempre muito divertido. Era o que a mulher me falava, pois no primeiro dia de consulta, o Sr R não conseguia falar, nem engolir nada, nem abrir a boca. Depois de muitos anos de cigarro, ele passou a apresentar um câncer de língua avançado. Em poucos meses aquela feridinha perto da língua cresceu, fixou a língua na base da boca, ulcerou e impedia que qualquer coisa passasse por ali

O tipo de doença era bem agressivo. Ele também tinha gânglios comprometidos, o que implicava em uma chance de cura ainda menor. O fato de estar desnutrido devido impossibilidade de comer também não ajudava

Foi indicado a ele quimioterapia e radioterapia. Não foi fácil, pois teve que usar uma sonda para se alimentar. A radioterapia escurece a pele, seca a saliva, irrita a garganta. A quimioterapia provocou náuseas e fraqueza. Uma ou duas vezes os familiares perguntaram se não valia a pena parar o tratamento, de tão fraco que ele estava.

2 meses após o tratamento, o Sr R entrou no meu consultório 6 kg mais pesado. Ele entrou me mostrando a língua. Não como um paciente, mas como uma criança feliz sabendo que esta fazendo uma travessura. Não havia mais doença de qualquer espécie. Voltou a comer, a falar normalmente. Eu sabia que mesmo tendo melhorado, é o tipo de doença que teria uma alta chance de voltar, e dificilmente curaria. Isso foi há 4 anos atrás

Hoje, o Sr R entrou no meu consultório. Ele ainda me mostra a língua quando o cumprimento, sempre feliz.

Anúncios

Estive recentemente em um congresso sobre bioética e medicina paliativa aqui em Londrina.  Embora as palestras dos meus colegas da saúde tenham sido extremamente interessantes, confesso que a que mais me chamou a atenção foi a de um teólogo, explicando sobre o papel da religião e espiritualidade no paciente terminal.

Como a oncologia envolve muitas pessoas na terminalidade, achei pertinente. Vou deixar claro que não sou teólogo, não entendo de teologia e nem de filosofia, e por isso já peço desculpas de estiver falando alguma besteira ou redundância.

A primeira consideração interessante colocada foi sobre a integralidade do ser humano. Não se trata o corpo sem tratar o emocional. Citou a historia de uma moça que tentou se matar, não conseguiu, ficou vários dias na UTI, todo o investimento para salva-la. Assim que recebeu alta ela vai e pula de um prédio. Essa moça foi tratada? Do ponto de vista biológico sim, mas o resultado final fala por si mesmo.

Tais abordagens foram citadas como “máximos e mínimos.” Mínimos são as atividades e cuidados que todas as pessoas tem direito e deveriam receber: higiene, medicação, dignidade, tratamento médico. O Máximo seria todo o suporte que em um primeiro momento pode parecer trivial para o profissional que está afundado nos problemas do dia a dia: suporte emocional, psicológico, espiritual. Todos os complementos mais “elaborados” que na maioria das vezes passam batidos pela equipe médica, mas  para o paciente fazem toda a diferença.

O mínimo, todos deveriam receber. Isso é lei, está na constituição. O máximo deveria estar à disposição, e ser oferecido às pessoas que assim desejarem

Aí entra o papel da religião. Não sou uma pessoa religiosa, mas só quem vive o que o oncologista vive para saber que a maneira que uma pessoa reage psicologicamente frente à doença faz toda a diferença. O otimista, quem tem fé, quem encara a situação de cabeça erguida, por algum motivo sempre suporta melhor, recupera melhor, acaba o tratamento mais rápido. Nada de ciência nisso, só uma observação pessoal.

Ter aonde se apoiar é valiosíssimo. O exercício de fé de algumas pessoas é suficiente para levá-las até o fim do tratamento sem tanto sofrimento, ou pelo menos com um sofrimento melhor elaborado pelo individuo. A fé como recurso de suporte é extremamente importante, quando presente em “medidas terapêuticas.” Não é o caso da pessoa que abandona o acompanhamento médico porque fez uma cirurgia espiritual ou foi exorcizado ou qualquer outro recurso cientificamente não-válido. Já falei em posts anteriores que não tenho nada contra esses procedimentos, com exceção daqueles que estimulam a pessoa a abandonar o tratamento medicamente comprovado.

Seguindo minha idéia de, primeiramente, falar em “assuntos gerais” da oncologia antes de querer entrar em assuntos mais técnicos como tratamentos e prevenção de doenças, optei por discutir outro assunto que é extremamente difícil para o oncologista e para as pessoas como um todo: A morte.

Quem já leu livros como “Por um Fio”, de Dráuzio Varella, ou “Sobre a Morte e o Morrer”, de Elizabeth Kubler-Ross, já consegue ter uma base do que estou querendo dizer, mas o que quero passar a vocês são, estritamente, as minhas impressões pessoais sobre esse assunto, tão corriqueiro na vida de todos e ao mesmo tempo tão pouco discutido.

Em quase 100% das vezes que digo a alguém que sou oncologista a resposta (que geralmente vem depois de uma careta) é alguma coisa no sentido de “Nossa que coisa triste!” ou “Como vocês conseguem?” ou “Puxa, tem que ser muito frio para conseguir viver como vocês”.

Será verdade? Bem, no meu primeiro ano de medicina ganhamos uma camiseta que dizia “Divinum Opus est Sedare Dolorem”, em Português — “O mais divino é sedar a dor”. Essa é uma frase muito antiga, e prestem atenção no que ela diz: mais importante é aliviar o sofrimento. É para isso que estamos aqui. Se conseguirmos curar, se conseguimos salvar alguém, isso é um bônus. A verdadeira vitória e missão do médico, na minha visão, é a de aliviar o sofrimento, objetivo que conseguimos atingir mesmo nos piores e mais irremediáveis casos. Morrer com dignidade, sem dor, na maioria das vezes é tão importante quanto salvar alguém.

Existe um termo na medicina que se chama distanásia. Diferente da eutanásia, que é a abreviação da vida para evitar sofrimento (com todas as implicações éticas cabíveis), a distanásia é o prolongamento da vida a custo de sofrimento. É a situação onde a morte deveria ocorrer naturalmente, mas o médico, (por ansiedade, despreparo ou negação), opta pela reanimação, entubação, medicamentos, ou outros procedimentos que prolongam a vida, mas sem a previsão de qualquer melhora do paciente. Essa pessoa vai “viver” por mais algum tempo, mas em condições deploráveis, aumentando ainda mais o sofrimento seu e de sua família.

Na oncologia vemos muito disso. Á nossa volta encontramos muitos médicos que se recusam a aceitar que não são Deus e tentam manter a vida a qualquer custo, com os prejuízos que citei acima. A situação ideal é a ortotanásia, ou seja, o reconhecimento das nossas limitações como humanos, e a busca pela morte digna, no seu momento certo, nem antes e nem depois da hora. Muito se discute sobre a ortotanásia hoje em dia, e as leis cada vez mais estão abordando favoravelmente esse tipo de situação, inclusive com o apoio da igreja.

Respondendo agora às perguntas que vivem me fazendo: Como consigo viver assim? Como consigo dormir de noite e não chorar? Primeiramente, o contato com a morte é apenas parte do nosso dia. Com o avanço da medicina cada vez mais os nossos pacientes se curam, ou pelo menos vivem bem por bastante tempo. Só isso já é motivo para não desanimarmos. Em relação ao problema em questão, eu consigo viver muito tranquilamente, não choro de noite e nem deixo de comer nas horas certas. Eu simplesmente não trago a dor do paciente ou de sua família comigo.

Entender a dor do paciente e não senti-la é o segredo dos bons oncologistas e médicos em geral que conheci. Se você sente a dor de outra pessoa você sofrerá junto com ela e não mais conseguirá ajudá-la com a cabeça fria, tão necessária nessa hora. Na residência médica meu amigo uma vez me falou: “Se a pessoa te abraça e chora, é porque ela está vulnerável e precisa de ajuda. Se você chora junto é porque você também precisa de conforto, e sua missão ali é ajudar, e não ser ajudado”. Ter empatia, portanto, para mim é o mais importante. Sofrer junto não ajuda ninguém e em longo prazo estraga a carreira e a saúde de qualquer um.

Essas coisas estão longe de ser fáceis, e realmente não é todo mundo que consegue. Um exemplo é aquele médico que não dá a mínima para o paciente, gosta de dar tempo de vida (“você tem seis meses de vida, tenha um bom dia”), faz consultas curtas e secas. Esse profissional, na minha opinião, é a pessoa mais insegura de todas. Não consegue encarar os sentimentos dos outros e nem os seus próprios, e por isso solta a bomba no colo do coitado do enfermo e fecha a porta do consultório para não ouvir o estouro.

Todo mundo conhece a prece “Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença.” Apesar dela estar em oito de 10 frases nas redes sociais, são poucas as pessoas que realmente buscam serenidade, coragem e sabedoria e elas são para mim, os segredos da boa medicina.

Ola a todos!

Estou a cumprir uma das minhas resoluções de ano novo. Eu sempre gostei da idéia de manter um blog, e por um curto tempo eu mantive o falandosobreoncologia com alguma periodicidade. Algumas coisas me aborreciam, especialmente minha inépcia completa em editar, postar e colocar a pagina em uma configuração agradável. Sabendo que meus textos geralmente são pesados, é o mínimo que eu poderia fazer para suavizar a leitura.

As coisas começaram a melhorar agora, que pedi a minha irmã, a Bianca Pozzi (www.pequenograndecaowordpress.com, http://www.viralatasderaca.com.br), uma expert em blogs, a me auxiliar na montagem nesta nova versão do falando sobre oncologia

A minha idéia é postar algo a cada 7-10 dias, de preferência assuntos genéricos que envolvam o câncer e seu tratamento, ou algo relevante que tenha acontecido no meu dia a dia. Colocarei também meus posts antigos, para que as pessoas possam continuar a ler alguns dos meus textos, que modéstia a parte eu gosto muito. Outra opção será a de atender a pedidos específicos por algum tema interessante que alguém venha porventura pedir

O que eu NÃO farei: não tenho nenhuma intenção em substituir médicos oncologistas que estejam presentes no tratamento de determinado individuo ou parente próximo que está acompanhando este blog. O câncer é uma doença única a cada pessoa, e seu tratamento extremamente individualizado. Portanto, não será uma consulta online que ira trazer grandes respostas para as pessoas que me procurarem aqui. Falar diferente seria presunçoso e temerário da minha parte. Entendo muito bem a ansiedade e a busca de respostas que os seres humanos procuram nas horas de pavor que o câncer causa, mas a pessoa mais indicada para provê-las são os profissionais que estão lutando ao lado de cada paciente, e não um blog feito por um médico que pode estar a centenas de quilômetros de distancia.

Obviamente isso não significa que deixarei de ajudar como puder qualquer um que me procure. Estou à disposição!