Posts Tagged ‘cura do cancer’

Um dos maiores problemas no câncer não é orgânico, mas sim o impacto psicológico causado, tanto no curto quanto no longo prazo. Apesar dos avanços da medicina no tratamento e na detecção precoce em oncologia, temos muitos vestígios da noção que nossos avós possuíam sobre a doença. Os antigos viam o câncer como “doença ruim”, sinônimo de morte, e o impacto cultural desta perepção é sentido de maneira constante em nosso cotidiano.

Como já mencionei em textos anteriores, dá-se o título “curado” para o paciente que sobreviveu 5 anos sem doença após o fim do tratamento. Esse tempo é  algo arbitrário, pois nunca ninguem está isento de riscos, seja ele um câncer que “volta”, ou uma doença “nova.” Basta estarmos vivos para termos chance de adoecer, é o que digo aos meus pacientes. No lado positivo, sabemos que estatisticamente após 5 anos o risco cai a seus níveis mais baixos, e sim, podemos afirmar com tranquilidade para a maioria de nossos pacientes que a cura ocorreu. O que ocorre depois dessa (boa) notícia?

A vida depois da cura não é a mesma que a antes da doença. Com meus (ainda) poucos anos na área, começo a ter meus primeiros pacientes se curando pela definição médica da palavra. Eles nao são as mesmas pessoas que conheci ha 6 anos atrás. São pessoas geralmente mais fortes, mais resolvidas, dão mais valor à sua vida. São tambem mais receosos, como uma “Cicatriz” que fica para sempre em sua mente e seu espírito. Em maior ou menor grau, todos eles se lembram do que passaram, e carregam eternamente consigo o peso dessa batalha.

Algumas cicatrizes orgânicas também existem, e variam de doença para doença, de pessoa para pessoa. Alguns exemplos corriqueiros: a sequela da mastectomia (a retirada da mama), que pode causar dor crônica e limitação de movimentos. A colostomia (o intestino ligado a uma bolsa que fica presa na parede do abdome), que traz problemas sociais e funcionais. Temos também a fadiga crônica, dor recorrente, inchaço, etc. Obviamente com o avanço dos tratamentos essas sequelas vem se reduzindo em frequencia e intensidade de maneira significativa, mas estao longe de desaparecer por completo

Como combater esses problemas de longo prazo? Para mim só ha uma resposta: Apoio multidisciplinar

Uma deficiência que temos no meio da saúde é o apoio de longo prazo para esses pacientes. Isso vale tanto para o sistema público quanto para o privado. Idealmente os sobreviventes deveriam ter a oportunidade de serem acompanhados por especialistas de maneira duradoura.  Conheço pessoas com colostomia há anos, que aprenderam  a se aceitar e a ter uma vida normal, apesar de sua nova condição. Tenho outros no entanto que sofrem demais com a bolsa. O auxilio tem que vir com uma equipe de saúde coesa. Enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos… todos tem uma parcela extremamente importante na reabilitação fisica e psicológica desses indivíduos que ja passaram por tantas batalhas.

O que quero concluir é que, embora a maior batalha ja tenha sido vencida, a guerra continua sendo travada dia a dia. O sobrevivente de câncer é um herói, só ele sabe o que teve que passar. Nós só podemos imaginar, e dar todo apoio que ele merece. A vida após o câncer existe, e pode ser muito boa, só precisamos todos trabalhar juntos para que isso aconteça.

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Apesar de todos os estudos e pesquisas envolvidos, a verdade é que a medicina continua não sendo uma ciência exata. Tomar antibióticos para infecção sempre funciona?  Não. A oncologia, que aborda uma doença tão complexa como o câncer não seria diferente, ao contrário, é uma das áreas que mais trabalha com possibilidades ( e não certezas).

É exatamente por isso que eu procuro sempre ser muito claro na hora de indicar qualquer tratamento ou explicar sobre alguma patologia. Não podemos nunca garantir resultados.

Onde estão as incertezas? Basicamente em todo lugar.

Vamos a um exemplo: a paciente foi submetida a uma cirurgia curativa, onde toda a doença foi removida. Ela está curada? Não sei. Em oncologia, definimos cura quando a pessoa passa 5 anos sem apresentar recidiva do câncer. É um valor arbitrário. Sabemos que após 5 anos as chances do problema retornar reduzem bastante, mas nem por isso a pessoa está isenta de riscos (até porque nenhum de nós está). O que oncologistas clínicos fazem nessa situação é aumentar as possibilidades de sucesso, por vezes de maneira extremamente relevante, por vezes muito discreta.

E o câncer que não tem cura? As incertezas também existem. O intuito nesta situação é “estacionar” a doença, controlar a dor, reduzir seu tamanho. Sempre funciona? Longe disso. Obviamente sempre iremos buscar aquilo que proporcionará mais chance de tudo dar certo. Em caso de falha geralmente temos uma ou duas opções alternativas, mas daí as o raciocínio  começa tudo de novo.

Fato é, como oncologistas o máximo que conseguimos fazer é trazer as probabilidades a favor do paciente. Por vezes as chances de sucesso são altas e mesmo assim as coisas dão errado. Ainda bem que também existem os casos “quase impossíveis”, mas que ainda assim dão certo. E é por isso que o oncologista tem que ser eternamente um otimista…

Estive no começo do mês em Chicago participando do congresso anual da sociedade americana de oncologia clinica (em inglês a sigla é ASCO).  Congressos de medicina, a bem da verdade, não são tão interessantes a ponto de me inspirarem a criar um post, mas a ASCO merece, e por vários fatores.

O primeiro deles é a imensidão. Este congresso é feito no McCormick place, um centro de eventos gigantesco, com 173 salas de apresentação, e 26 milhões de pés quadrados de área (se não errei na conta equivale a 241.000 m2). Tal extensão força o participante a se programar com muita antecedência: não era difícil perder uma sessão simplesmente porque  estava muito longe de sua localização atual e não daria tempo para chegar antes de seu inicio.

O segundo ponto: o número de pessoas. Ouvi dizer que foram perto de 41 mil inscritos, incluindo staff, representantes das indústrias, médicos, membros de ONGs, etc. Não sei se esse número é o oficial, mas a sensação era a que eu estava no meio de um formigueiro. Não foram poucos os colegas que soube que estavam presentes, mas não os encontrei. Foi muito interessante esse encontro de culturas, com gente de todo o mundo. Médicos de turbantes e kippahs, oncologistas com as mais variadas vestimentas, línguas e atitudes, mas todos lá com o interesse de presenciar a ciência produzida e levá-la de volta para casa

A ciência é o foco do congresso. Lá são mostrados os resultados de inúmeros estudos produzidos em todo o globo. Não é o único grande congresso onde trabalhos científicos importantes são apresentados (atualmente existe a ASCO gastrointestinal, ASCO ginecológico, ASCO pulmão, etc, que acabou por fragmentar um pouco o conhecimento), mas mantem importancia significativa no cenario científicopelo numero e qualidade  de estudos apresentados.

Como todo evento anual, existem encontros onde são expostas grandes descobertas e achados, e outros menos relevantes em termos de inovação. Esse ano foi interessante, especialmente para o melanoma. Como esse blog é voltado para o leigo, não entrarei em detalhes, mas existem algumas coisas que devem ser colocadas em perspectiva: a ciência na oncologia anda a passos largos, sem duvida. Constantemente ouvimos sobre tecnologias que impactam no tratamento. Por outro lado, não existem milagres (pelo menos não produzidos pelo homem).

São raros os encontros deste tipo que revelam descobertas que mudam drasticamente a história natural de uma doença. Aquele câncer que impõe uma sobrevida curtíssima ao paciente, dificilmente será tão suscetível a uma droga nova que o tornaria  uma doença de fácil tratamento. Infelizmente as coisas  funcionam assim. O mais próximo da realidade são pequenos aprimoramentos, porem repetidos e contínuos. Os oncologistas frequentemente são motivo de brincadeiras pelos colegas, por sempre procurar tratamentos que aumentam pouco tempo de vida, ou trabalham com porcentagens de sucesso muito baixas. As pessoas se esquecem que a SOMA desses resultados ao longo do tempo é que faz a diferença, e isso sim é muito relevante

L. foi encaminhada para mim porque tinha um câncer de mama. Tinha 30 e poucos anos, era bonita, professora, tinha silicone, filhos novos e uma família feliz. Pela posição da doença, o silicone atrapalhou o diagnostico de inicio no seu caso, e quando chegou ao meu consultório percebi que a lesão era grande. Por causa disso optamos por fazer quimioterapia pré-operatoria, com a intenção de reduzir a lesão e facilitar a cirurgia

Começamos os esquemas iniciais de tratamento. Veio o mal estar e a queda de cabelo, sem muitas náuseas ou vômitos, felizmente. Ela era vaidosa, e a perda de cabelo a afetou bastante. Era difícil medir a lesão, mas parecia que estava melhorando. No meio do tratamento, optamos por indicar a cirurgia, pois tínhamos dificuldade em precisar se estava melhorando ou piorando.

A cirurgia retirou toda a lesão, mas vimos que a quimioterapia estava fazendo pouco efeito. Optei por mudar o esquema, sabendo que era um tumor mais agressivo do que se esperava. O esquema teoricamente era mais tranqüilo em termos de efeitos colaterais, mas L. não tolerou bem essas novas medicações. Sentia dores no corpo e diarréia, mas manteve-se firme no tratamento.

30 dias após o fim da quimioterapia, L. estava aguardando uma medicação que não é fornecida pelo SUS, e por isso esperava uma liminar na justiça. O remédio havia acabado de ser liberado. Neste mesmo dia, L. começou a ter sangramentos, ficou amarela, apresentou inchaço, vômitos mais sérios. Eu a internei, e nos exames vimos que a doença já havia voltado, em menos de um mês do fim do tratamento. O fígado estava parando de funcionar. Chamei vários colegas especialistas para ajudar nas intercorrencias; gastro, hemato, cirurgião torácico, vascular…

L. morreu alguns dias depois de sua internação. Tenho plena convicção que todas as medidas que poderiam ser feitas foram feitas, e se a historia começasse de novo, eu não teria muito o que fazer diferente. Mas isso dificilmente é consolo quando perdemos alguem dessa maneira.

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O Sr. R é uma figura. Sempre foi animado, era pedreiro, um homem simples, mas sempre muito divertido. Era o que a mulher me falava, pois no primeiro dia de consulta, o Sr R não conseguia falar, nem engolir nada, nem abrir a boca. Depois de muitos anos de cigarro, ele passou a apresentar um câncer de língua avançado. Em poucos meses aquela feridinha perto da língua cresceu, fixou a língua na base da boca, ulcerou e impedia que qualquer coisa passasse por ali

O tipo de doença era bem agressivo. Ele também tinha gânglios comprometidos, o que implicava em uma chance de cura ainda menor. O fato de estar desnutrido devido impossibilidade de comer também não ajudava

Foi indicado a ele quimioterapia e radioterapia. Não foi fácil, pois teve que usar uma sonda para se alimentar. A radioterapia escurece a pele, seca a saliva, irrita a garganta. A quimioterapia provocou náuseas e fraqueza. Uma ou duas vezes os familiares perguntaram se não valia a pena parar o tratamento, de tão fraco que ele estava.

2 meses após o tratamento, o Sr R entrou no meu consultório 6 kg mais pesado. Ele entrou me mostrando a língua. Não como um paciente, mas como uma criança feliz sabendo que esta fazendo uma travessura. Não havia mais doença de qualquer espécie. Voltou a comer, a falar normalmente. Eu sabia que mesmo tendo melhorado, é o tipo de doença que teria uma alta chance de voltar, e dificilmente curaria. Isso foi há 4 anos atrás

Hoje, o Sr R entrou no meu consultório. Ele ainda me mostra a língua quando o cumprimento, sempre feliz.