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Apesar de todos os estudos e pesquisas envolvidos, a verdade é que a medicina continua não sendo uma ciência exata. Tomar antibióticos para infecção sempre funciona?  Não. A oncologia, que aborda uma doença tão complexa como o câncer não seria diferente, ao contrário, é uma das áreas que mais trabalha com possibilidades ( e não certezas).

É exatamente por isso que eu procuro sempre ser muito claro na hora de indicar qualquer tratamento ou explicar sobre alguma patologia. Não podemos nunca garantir resultados.

Onde estão as incertezas? Basicamente em todo lugar.

Vamos a um exemplo: a paciente foi submetida a uma cirurgia curativa, onde toda a doença foi removida. Ela está curada? Não sei. Em oncologia, definimos cura quando a pessoa passa 5 anos sem apresentar recidiva do câncer. É um valor arbitrário. Sabemos que após 5 anos as chances do problema retornar reduzem bastante, mas nem por isso a pessoa está isenta de riscos (até porque nenhum de nós está). O que oncologistas clínicos fazem nessa situação é aumentar as possibilidades de sucesso, por vezes de maneira extremamente relevante, por vezes muito discreta.

E o câncer que não tem cura? As incertezas também existem. O intuito nesta situação é “estacionar” a doença, controlar a dor, reduzir seu tamanho. Sempre funciona? Longe disso. Obviamente sempre iremos buscar aquilo que proporcionará mais chance de tudo dar certo. Em caso de falha geralmente temos uma ou duas opções alternativas, mas daí as o raciocínio  começa tudo de novo.

Fato é, como oncologistas o máximo que conseguimos fazer é trazer as probabilidades a favor do paciente. Por vezes as chances de sucesso são altas e mesmo assim as coisas dão errado. Ainda bem que também existem os casos “quase impossíveis”, mas que ainda assim dão certo. E é por isso que o oncologista tem que ser eternamente um otimista…

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Estive no começo do mês em Chicago participando do congresso anual da sociedade americana de oncologia clinica (em inglês a sigla é ASCO).  Congressos de medicina, a bem da verdade, não são tão interessantes a ponto de me inspirarem a criar um post, mas a ASCO merece, e por vários fatores.

O primeiro deles é a imensidão. Este congresso é feito no McCormick place, um centro de eventos gigantesco, com 173 salas de apresentação, e 26 milhões de pés quadrados de área (se não errei na conta equivale a 241.000 m2). Tal extensão força o participante a se programar com muita antecedência: não era difícil perder uma sessão simplesmente porque  estava muito longe de sua localização atual e não daria tempo para chegar antes de seu inicio.

O segundo ponto: o número de pessoas. Ouvi dizer que foram perto de 41 mil inscritos, incluindo staff, representantes das indústrias, médicos, membros de ONGs, etc. Não sei se esse número é o oficial, mas a sensação era a que eu estava no meio de um formigueiro. Não foram poucos os colegas que soube que estavam presentes, mas não os encontrei. Foi muito interessante esse encontro de culturas, com gente de todo o mundo. Médicos de turbantes e kippahs, oncologistas com as mais variadas vestimentas, línguas e atitudes, mas todos lá com o interesse de presenciar a ciência produzida e levá-la de volta para casa

A ciência é o foco do congresso. Lá são mostrados os resultados de inúmeros estudos produzidos em todo o globo. Não é o único grande congresso onde trabalhos científicos importantes são apresentados (atualmente existe a ASCO gastrointestinal, ASCO ginecológico, ASCO pulmão, etc, que acabou por fragmentar um pouco o conhecimento), mas mantem importancia significativa no cenario científicopelo numero e qualidade  de estudos apresentados.

Como todo evento anual, existem encontros onde são expostas grandes descobertas e achados, e outros menos relevantes em termos de inovação. Esse ano foi interessante, especialmente para o melanoma. Como esse blog é voltado para o leigo, não entrarei em detalhes, mas existem algumas coisas que devem ser colocadas em perspectiva: a ciência na oncologia anda a passos largos, sem duvida. Constantemente ouvimos sobre tecnologias que impactam no tratamento. Por outro lado, não existem milagres (pelo menos não produzidos pelo homem).

São raros os encontros deste tipo que revelam descobertas que mudam drasticamente a história natural de uma doença. Aquele câncer que impõe uma sobrevida curtíssima ao paciente, dificilmente será tão suscetível a uma droga nova que o tornaria  uma doença de fácil tratamento. Infelizmente as coisas  funcionam assim. O mais próximo da realidade são pequenos aprimoramentos, porem repetidos e contínuos. Os oncologistas frequentemente são motivo de brincadeiras pelos colegas, por sempre procurar tratamentos que aumentam pouco tempo de vida, ou trabalham com porcentagens de sucesso muito baixas. As pessoas se esquecem que a SOMA desses resultados ao longo do tempo é que faz a diferença, e isso sim é muito relevante

Nesse post, optei por discutir um assunto “genérico” do câncer. Se lermos sobre metástases na internet, independente de qual doença, estaremos expostos a muitas informações, algumas verdadeiras e outras falsas. Outras vezes, o leigo lê algo pertinente, mas que não se aplica à sua condição em especifico. Esse conhecimento geralmente só contribui para aumentar a confusão já presente na cabeça da pessoa.

Primeiramente, o que são metástases: são lesões neoplásicas (cancerosas), secundárias a um tumor que existe em outra parte do corpo. Dou um exemplo- a paciente que tem um câncer de mama (origem- mama), e que evoluiu com uma metástase óssea na coluna (sendo essa a lesão secundária). Essa metástase óssea é um tipo novo de câncer, que vem do osso? Não, a doença é a mesma, ela se originou da mama e por diversas vias ela acabou por surgir também nos ossos. Como que ela saiu de um lugar e foi para o outro? Existem diversas maneiras, mas mais comumente as células tumorais “viajam” pelo corpo através do sangue ou da linfa.

Exemplos de metástases são inúmeros. Praticamente qualquer órgão pode ser alvo de metástases, mas os mais comuns são fígado, ossos, pulmões, gânglios. Qualquer câncer pode causar metástases, mas o comportamento varia muito entre as doenças. Algumas patologias podem metastatizar facilmente, como no caso do câncer de pulmão de pequenas células. Outras raramente o fazem, como o carcinoma escamoso ou basocelular da pele. Para dificultar ainda mais, existem variâncias ainda dentro da mesma doença, como por exemplo os múltiplos tipos de câncer de mama, que vão desde os com alto potencial de metastatização a outros com praticamente nenhum poder de se espalhar.

A presença de lesões metastáticas evidentemente implica em um estágio mais avançado da doença, independente de qual sua origem. O que varia no entanto são os meios de tratamento para essa aflição. Existem metástases que são passiveis de serem operadas, e com isso livra-se o paciente por completo da doença tornando-se possível a cura. Muitas vezes no entanto isso não é possível, então foca-se no tratamento quimioterápico, especialmente com o intuito de controle da doença, mas sem uma possibilidade clara de cura definitiva. Existem exceções para essa afirmação, como as lesões metastáticas de tumores de testículo ou linfomas que felizmente somem definitivamente com a quimioterapia. Outra modalidade de tratamento é a radioterapia, usada principalmente para proporcionar um controle local da doença, como por exemplo proteger um osso doente da dor ou mesmo de eventos mais sérios como fraturas espontâneas.

Resumindo, são lesões que sempre devem ser levadas a sério, pois sua própria existência implica em uma doença mais avançada, mas nem por isso são sentenças clara de morte. Com o tempo, irei falando de doença a doença, e poderei ser mais específico. Por hora, tomem o que estou falando apenas como uma “introdução” ao assunto, e não como uma explicação para o que uma pessoa específica está sofrendo. SEMPRE deve-se perguntar ao médico assistente as duvidas que aparecerem, e só ele será capaz de explicar sobre a doença e seus possíveis tratamentos.

Nunca tentei mencionar isso no twitter porque é um assunto extremamente complicado. Afinal, o que é o SUS na oncologia? A verdade é que temos nas mãos um problema cada vez maior e mais atual, e vou tentar explicar a real situação que vivemos no nosso cotidiano.

Começarei dando um exemplo. A Dona Maria chega ao meu consultório com um câncer de mama operado e que merece tratamento quimioterápico complementar (o que chamamos de adjuvante) para aumentar suas chances de cura. Tenho 3 opções de remédio, a droga “A”, a droga “B” e a droga “C”, ambas igualmente eficazes.

Quando faço o pedido da quimioterapia, o valor em dinheiro repassado ao hospital depende de um código que eu preencho em uma ferramenta burocrática que se chama APAC (Autorização de Procedimento de Alto Custo). Esse código NÃO depende da droga que eu escolher e sim da doença da dona Maria. Nesse caso então vou preencher o código “câncer de mama tratamento adjuvante” e não “droga A, B ou C”.

O que isso significa? Bem, cada código paga um valor especifico, e esse valor não muda já faz um bom tempo. Vamos dizer que no caso da dona Maria, seu código vai pagar 500 reais. A droga “A” custa 150 reais, a droga “B” custa 500 reais e a droga “C” custa 750 reais. Eu, que sou o médico sentado na frente da Dona Maria, terei então que escolher qual droga usarei. Se uso a droga A estou dando um lucro ao hospital de 350 reais. Por outro lado se usar a droga B eu empato e se uso a droga C dou prejuízo,

A decisão é razoavelmente fácil se as drogas forem igualmente eficazes. Escolho a droga mais barata, a paciente vai ser beneficiada e o hospital recebe o tão merecido dinheiro, todos estão felizes. O problema vem com a segunda pergunta: e se a droga mais cara é a melhor?

Nessas situações, muito mais comuns que gostaríamos, o oncologista tem que ter algum jogo de cintura. Temos que ter noção que se causarmos prejuízo atrás de prejuízo o hospital quebra, todos perdem. Por outro lado não dá para ignorar aquela pessoa que está sentada na sua frente e ansiosa pelo melhor tratamento que você pode dar a ela. O que fazemos? Se é um caso pontual e o valor não é tão grande, optamos por indicar o tratamento melhor, sabendo que em algum ponto, em algum outro paciente, poderemos optar por algum tratamento que dê lucro, e a situação financeira se balanceará.

A situação piora na medida que a tecnologia e a ciência avançam, e nossa burocracia não: Alguns tratamentos relevantes custam mais de 4 ou 5 mil a DOSE (uns chegam até a 12-15 mil), e seus códigos pagam 500, 600 reais. Se você reclama ao governo, qual a resposta que você recebe? “Sua reclamação não tem fundamento, pois existe um código de APAC para a doença referida.” O que eles esquecem de mencionar é que seu código está muito, MUITO aquém do que custa o remédio.

Quem paga o preço por tudo isso? O governo se exime, dizendo que está dando o tal código. Isso repercute no hospital, que frequentemente é obrigado judicialmente a pagar a diferença da droga, apesar de tal obrigação ser do governo. Acontece que estamos falando dos mesmos hospitais que muito geralmente estão em crise financeira justamente por não receber o dinheiro sofrido do SUS. Esses hospitais por sua vez pressionam os médicos a diminuir os custos,  e estes muitas vezes cedem à essa pressão e deixam de mencionar aos seus pacientes sobre a existência de determinadas medicações, passando a andar em uma linha ética muito tênue.

Volto a perguntar: quem paga o preço? Obviamente, o lado mais fraco, que sempre é o paciente. Preso em sua vulnerabilidade pela doença, pela ignorância jurídica e pelo desespero de conseguir alguma esperança, o paciente muitas vezes se vê sozinho contra um inimigo muito maior que ele, tendo apenas o médico do seu lado, que também sofre por conhecer uma medicina muito melhor na sua teoria do que aquela que ele consegue aplicar na prática.