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Os temas de bioética são sempre interessantes porque são fontes de muita discussão. Uma situação que o oncologista enfrenta diariamente é o embate entre a decisão médica e a autonomia do paciente.

Mas o que significa autonomia?  Segundo a Wikipédia: “Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.”

Na bioética, é um dos quatro princípios (autonomia, não-maleficiência, beneficiência e justiça). Significa que cada um é responsável por suas próprias decisões e tem autoridade sobre seu próprio corpo. É engraçado que esse conceito não existia nos primórdios da medicina, provavelmente pelo posto de “semi-deus” que o médico ocupava em tempos antigos, que tinha poder total sobre o paciente, que ocupava um papel ainda mais fragilizado que o de hoje. Por séculos, o médico foi o centro da medicina. Hoje, claramente é o paciente.

Apesar de extensamente discutida, ainda temos muitas dificuldades para lidar com questões que envolvam autonomia. Explico: muito aprendemos sobre as doenças. Passamos a entender de medicações, evolução natural de doenças, de indicações de tratamentos, nomes complicados e procedimentos mais complicados ainda. O que quase ninguém se preocupa em aprender é como lidar com PESSOAS.

Pense na seguinte situação. Você tem em suas mãos um tratamento que irá aumentar as chances de cura de um doente, ou ao menos aliviar seu sofrimento. Você tem trabalhos científicos, tem experiência e sabe que a indicação do que você está oferecendo é precisa. No consultório, você expõe sua proposta de tratamento para o paciente, com a certeza que ele alegremente irá concordar com sua idéia. Porém, nem sempre isso acontece. Por diversos motivos (medo, insegurança, religião, resignação, ignorância, família…) o paciente pode optar em não seguir sua proposta.

Em um primeiro momento você pode achar isso ridículo. Como recusar algo que você sabe que irá te fazer bem? Acontece que nem sempre é tão simples: Existirá aquele que não aceita uma cirurgia que o acabará prendendo a uma bolsa de colostomia. Outro não aceitará uma amputação. Outro não concordará com um tratamento quimioterápico que faz cair cabelos. A linha que cada um aceita cruzar não é do médico para traçar, e aí que vem o embate médico-paciente.

Se por um lado o médico sofre porque está vendo o índivíduo recusar uma proposta honesta de tratamento, por outro lado ele tem que entender que ele não é DONO da pessoa que está sentada à sua frente no consultório. Seu papel, no final das contas, é de ser seu parceiro, orientando-o e ajudando-o no que puder. As decisões sempre serão em conjunto, mas o “sim” ou o “não” finais sempre serão dados pelo paciente.

Com meus poucos anos na área, aprendi que temos muita força na hora de influenciar decisões, mesmo quando inicialmente a pessoa aparenta estar contra a sua proposta. É nossa função explicar todas as vantagens e conseqüências de cada caminho escolhido, guiando o paciente a escolher a melhor alternativa. No entanto, não podemos esquecer que não somos os donos da verdade, e por isso devemos dar apoio e compreensão, mesmo quando as decisões não são exatamente as que escolheríamos para nós mesmos.