Archive for the ‘oncologia’ Category

 

 

Vou tentar explicar

Optei por esse tema por ser algo sempre muito desejado e abordado constantemente pela mídia e redes sociais.

…“ A nova CURA do cancer.”

…“Novo medicamento pode ser a CURA do câncer.”

…”tratamento natural é a nova promessa de CURA do câncer.”

Sempre que vejo uma chamada com aspectos semelhantes sinto uma estranheza mesmo antes de ler o texto. Embora tais enunciados tenham um efeito muito mais apelativo para os leigos,  posso dizer que  provelmente nunca teremos uma única cura universal para o câncer.

Por quê esse pesimismo?

Na verdade não é bem pessimismo, e sim um entendimento que o câncer não é uma doença, mas sim uma infinidade de doenças diferentes a quem damos o mesmo nome.

Farei agora algumas analogias bobas, mas que podem ajudar a entender o que estou dizendo:

Uma pneumonia é igual a uma infecção urinaria? Uma celulite na perna é igual uma tuberculose? Um resfriado é igual a uma amigdalite?

Para o leigo, é muito claro que essas doenças são diferentes uma das outras, mas se pararmos para pensar, são todas INFECÇÕES, não é mesmo? Seria lógico pensar que o mesmo tratamento do resfriado é igual a o de uma tuberculose?

Na mesma linha de raciocínio, posso dizer que um câncer de mama é muito diferente de um melanoma, que é um câncer de pele. Muitas vezes um câncer de mama pode ser diferente de OUTRO câncer de mama! Como achar que um único remédio vai ser capaz de resolver todos esses problemas tão diferentes uns dos outros?

Fatores hereditários, genéticos, imunitários, ambientais, dentro de tantas outras variáveis transformam cada doença em um quebra-cabeça único e muito dificil de resolver.

Não se enganem. A medicina tem avançado, e muito, na pesquisa de tratamentos oncológicos. Com medicações cada vez mais focadas e precisas, além de progressos importantes na área de imunidade, hoje somos muito mais capazes do que éramos há uma década atras.

Minha intenção é com o tempo falar de cada uma dessas doenças, e juntos entenderemos um pouco mais sobre esse problema tao terrível que tem um nome só mas se manifesta de inúmeras formas.

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voltando

Posted: Julho 13, 2016 in oncologia

Olá!

3 anos sem aparecer!

nesse tempo muita coisa aconteceu, incluindo casamento e um filhinho 🙂

tentarei escrever sempre que puder

quem quiser, tambem pode me seguir no facebook, de lá acho que a interação pode ser maior

o endereço:

https://www.facebook.com/oncologista/

Um dos maiores problemas no câncer não é orgânico, mas sim o impacto psicológico causado, tanto no curto quanto no longo prazo. Apesar dos avanços da medicina no tratamento e na detecção precoce em oncologia, temos muitos vestígios da noção que nossos avós possuíam sobre a doença. Os antigos viam o câncer como “doença ruim”, sinônimo de morte, e o impacto cultural desta perepção é sentido de maneira constante em nosso cotidiano.

Como já mencionei em textos anteriores, dá-se o título “curado” para o paciente que sobreviveu 5 anos sem doença após o fim do tratamento. Esse tempo é  algo arbitrário, pois nunca ninguem está isento de riscos, seja ele um câncer que “volta”, ou uma doença “nova.” Basta estarmos vivos para termos chance de adoecer, é o que digo aos meus pacientes. No lado positivo, sabemos que estatisticamente após 5 anos o risco cai a seus níveis mais baixos, e sim, podemos afirmar com tranquilidade para a maioria de nossos pacientes que a cura ocorreu. O que ocorre depois dessa (boa) notícia?

A vida depois da cura não é a mesma que a antes da doença. Com meus (ainda) poucos anos na área, começo a ter meus primeiros pacientes se curando pela definição médica da palavra. Eles nao são as mesmas pessoas que conheci ha 6 anos atrás. São pessoas geralmente mais fortes, mais resolvidas, dão mais valor à sua vida. São tambem mais receosos, como uma “Cicatriz” que fica para sempre em sua mente e seu espírito. Em maior ou menor grau, todos eles se lembram do que passaram, e carregam eternamente consigo o peso dessa batalha.

Algumas cicatrizes orgânicas também existem, e variam de doença para doença, de pessoa para pessoa. Alguns exemplos corriqueiros: a sequela da mastectomia (a retirada da mama), que pode causar dor crônica e limitação de movimentos. A colostomia (o intestino ligado a uma bolsa que fica presa na parede do abdome), que traz problemas sociais e funcionais. Temos também a fadiga crônica, dor recorrente, inchaço, etc. Obviamente com o avanço dos tratamentos essas sequelas vem se reduzindo em frequencia e intensidade de maneira significativa, mas estao longe de desaparecer por completo

Como combater esses problemas de longo prazo? Para mim só ha uma resposta: Apoio multidisciplinar

Uma deficiência que temos no meio da saúde é o apoio de longo prazo para esses pacientes. Isso vale tanto para o sistema público quanto para o privado. Idealmente os sobreviventes deveriam ter a oportunidade de serem acompanhados por especialistas de maneira duradoura.  Conheço pessoas com colostomia há anos, que aprenderam  a se aceitar e a ter uma vida normal, apesar de sua nova condição. Tenho outros no entanto que sofrem demais com a bolsa. O auxilio tem que vir com uma equipe de saúde coesa. Enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos… todos tem uma parcela extremamente importante na reabilitação fisica e psicológica desses indivíduos que ja passaram por tantas batalhas.

O que quero concluir é que, embora a maior batalha ja tenha sido vencida, a guerra continua sendo travada dia a dia. O sobrevivente de câncer é um herói, só ele sabe o que teve que passar. Nós só podemos imaginar, e dar todo apoio que ele merece. A vida após o câncer existe, e pode ser muito boa, só precisamos todos trabalhar juntos para que isso aconteça.

Sobre o tratamento oral para câncer

Posted: Novembro 10, 2013 in oncologia

Esse artigo é da minha colega e farmacêutica Daniele Zampar, que pediu que eu postasse aqui no blog. É um texto especialmente importante pela época em que vivemos, com algumas mudanças relevantes para o início de 2014. Aqui vai:

 

Em 21/10/2013 tivemos o anúncio de que os usuários de planos de saúde terão direito a 37 medicamentos orais para o tratamento domiciliar de diferentes tipos de câncer a partir de Janeiro de 2014 (ver lista completa no link abaixo).

A saúde em nosso país tem inúmeras fragilidades, mas com a medida, espera-se resolver uma delas, que é a provisão de medicamentos de comprovado ganho terapêutico, bem como aqueles chamados de alvo molecular, que trazem menos efeitos colaterais por agirem especificamente nas células doentes e, por esta e outras razões, possuírem custos de aquisição elevados.

A provisão é essencial, mas igualmente importante é o acompanhamento destes pacientes durante todo o tratamento. Sugere-se neste momento, onde há preocupação pulsante da OMS com a segurança do paciente e escassez de recursos econômicos, que as operadoras de planos de saúde invistam na contratação de Farmacêuticos para dispensar estes medicamentos. Dispensar, por definição é: “ato profissional do farmacêutico de proporcionar um ou mais medicamentos a um paciente, como resposta à apresentação de uma prescrição elaborada por um profissional autorizado. Neste ato o farmacêutico informa e orienta o paciente sobre o uso adequado do medicamento”(1). Tal medida é econômica para as operadoras por garantir o uso correto de medicamentos tão caros! Na dispensação, o Farmacêutico reforça as orientações do prescritor e muitas vezes elucida os esquemas de tratamento com estes medicamentos.

Dados da OMS revelam que adesão ao tratamento medicamentoso é baixa, com taxa inferior a 60%(2). Adesão ao tratamento pode ser entendida como a extensão na qual o comportamento do paciente coincide com as orientações que tem por objetivo o controle ou a cura da doença(3). Os pacientes geralmente explicam sua resistência ao tratamento farmacológico e comportamental com as seguintes razões: não gostam de tomar remédios; não acreditam que seu diagnóstico é grave; não desejam ou não acreditam que são capazes de seguir as recomendações(4). Na dispensação, dependendo do tipo de serviço e estrutura, pode-se realizar a consulta farmacêutica para avaliar a adesão, fazer acompanhamento farmacoterapêutico e utilizar outras práticas clínicas que visam resolver a resistência e os comportamentos elencados acima com a terapia medicamentosa.

No cenário atual não podemos ser utópicos e imaginar que poderemos realizar todas as dispensações. Mas no caso dos medicamentos de que trata este texto, bem como a primeira vez que um paciente retira a insulina ou um medicamento para asma na UBS, aquele submetido à polifarmácia, o paciente de baixa adesão e outros casos especiais, devemos fazê-las e chamar de Dispensação Especializada. Esta deve ser realizada somente pelo Farmacêutico basicamente pelos seguintes motivos: complexidade da doença, esquemas de tratamento e/ou utilização de difícil compreensão para paciente e por envolver medicamentos de altíssimo custo.

O fornecimento do medicamento e o ato da entrega são imprescindíveis ao tratamento e devem ser considerados passos vitoriosos aos usuários dos planos de saúde. Mas há que se fazer a gestão clínica do tratamento, da dispensação do medicamento ao término de sua utilização. Não teremos resultados satisfatórios quando medicamentos são administrados concomitantemente e um inativa o outro, ou um medicamento diminui severamente a concentração sérica daquele que tem o objetivo de controlar a doença(5), ou ainda, se o medicamento fica apenas armazenado na casa do paciente porque este não compreendeu o esquema ou resiste ao tratamento, entre outros casos que poderiam ser citados.

Observação: No SUS, a consulta farmacêutica é um procedimento. Possui código e valor. Basta sistematizar as informações e trabalhar!

LINK: http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/arquivos/pdf/2013/Out/21/20131021_Rol2014_terapiaantineoplasicaoral.pdf

 

 

Daniele C O Zampar – CRF 11.509 PR

Farmacêutica Mestre UEL/Especialista em Oncologia SOBRAFO

Coordenadora Farmácia Clínica Somay Pós-Graduação

 

REFERÊNCIAS

1 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n. 3.916 de 30 de outubro de 1998. Aprova a Política Nacional de Medicamentos. Brasília (DF); 1998. [citado 2010 Mar 30]. Disponível em: <http://www.cff.org.br/userfiles/file/portarias/3916_gm.pdf&gt;.

2. World Health Organization, Sabaté E. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva; 2003. Disponível em: <www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_full_report.pdf>. Acesso 08 mar 2013.

3. McNabb WL. Adherence in diabetes: can we define it and can we measure it? Diabetes Care 1997; 20(2): 215-8.

4. Butterworth SW. Influencing patient adherence to treatment guidelines. J Manage Care Pharm 2008; 14(6 Suppl B): 21-24.

5. http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/BM/BM%5B34424-1-0%5D.PDF

Essa é uma das perguntas que mais ouço.

Nunca consegui explicar muito bem então vou tentar escrever o que são minhas respostas. Digam-me depois se deu para entender…

Um dos motivos que ouço de outros colegas é que em algum momento tiveram um parente com câncer e, com sua morte ou sofrimento, veio a vontade de combater a doença, da melhor maneira possível. A escolha pela oncologia seria algo coerente e justificado nesta situação. Minha avó materna morreu de câncer, mas tenho poucas recordações dela. Não conseguiria dizer que é por causa disso…

Outro motivo pelo qual alguns escolhem a área é o financeiro. Hoje a medicina como um todo é cada vez mais desvalorizada, mas especialidades muito específicas, como a oncologia, ainda tem um mercado interessante.

Pensando como nicho de trabalho, não há como discutir que o envelhecimento da população, por exemplo, é um indicador de um progressivo aumento das doenças crônicas, como o câncer. Na minha opinião, esse é o motivo mais triste de todos que possam levar a decisão de abraçar a profissão.

Por ser uma atuação emocionalmente muito impactante (tanto para o paciente quanto para o profissional) ,basear-se puramente em questões financeiras é um fator crítico para o surgimento de profissionais desgostosos, frios e pouco humanos. Oncologia precisa de pessoas com o perfil e motivação certa, e dinheiro por si só não é motivo suficiente.

É nessa questão do perfil que eu começo a achar os MEUS motivos.  O oncologista precisa ter a cabeça no lugar sem ser muito passional. Tem que entender o sofrimento do outro, exercitar a empatia ao mesmo tempo não sofrer junto, ou pelo menos na mesma intensidade, a dor do paciente e sua família. Tem que conseguir passar o dia em contato com muitas histórias pesadas e chegar em casa feliz, pronto para encontrar a família, passear com o cachorro, fazer coisas normais. 

Obviamente, todo mundo tem seus dias horrorosos. Somos afetados pelo que nos cerca, e às vezes, mesmo para nós que estamos “habituados”, alguma coisa passa por nossas defesas. Quem não consegue elaborar isso de maneira adequada pode ter grandes impactos em sua qualidade de vida, e as vezes até das pessoas à sua volta.

Consigo fazer isso tudo? A melhor resposta que tenho é “boa parte do tempo.” Tem gente que sabe fazer isso melhor que eu, outros muito menos. Não sei se isso é treino, convivência ou formação, mas fato é que (como todas as profissões) sempre existirão as pessoas que tem vocação para a área e as que não tem.

Por ultimo… Lembro-me da minha entrevista para a residência de oncologia em Porto Alegre. Meu antigo professor questionou os meus motivos, e sem pensar muito respondi algo mais ou menos assim:

O paciente oncológico revela o que há de melhor nas pessoas. É nele que você vê a maior coragem, a maior determinação, a maior honestidade. Não existe enganação, não existe dissimulação, mesmo que se tente. As emoções, boas e ruins, estão à mostra, e cada pequena vitória é motivo de comemorar.

Agora, com meus poucos 6 anos de atuação, talvez possa dizer mais – A oncologia mostra que às vezes, mesmo perdendo um paciente, você pode vencer. Fico extremamente feliz quando dou alta para uma pessoa, mas fico realmente emocionado quando uma família, ainda de luto pela perda de um ente querido, agradece por eu ter feito o meu melhor, como médico e ser humano. Isso não tem preço.

Outubro Rosa

Posted: Outubro 10, 2013 in oncologia

Todo mundo esta recebendo mensagens sobre o Outubro Rosa. Vê-se pessoas andando com o seu simbolo, a fita rosa presa à roupa. Aproveitando esse momento, resolvi contar um pouco da historia desse movimento e  de como ele veio a se tornar o que é.

Os dados que usei para escrever esse texto vem das paginas http://ww5.komen.org e http://www.outubrorosa.org.br/historia.htm

 Sua História

 Tudo começou com a promessa de Nancy G Brinker irmã da então paciente com câncer, Susan G. Komen, em 1982, nos Estados Unidos. Ela havia prometido à irmã que faria de tudo ao seu alcance para acabar com o câncer de mama para sempre. Com essa promessa, o movimento Susan G Komen for the Cure foi criado. Dessa única pessoa, nasce um grupo com mais de 100.000 participantes na atualidade, sobreviventes do câncer e ativistas, com um impacto mundial incomparável a qualquer outra organização do tipo.

Em 1997 o Outubro Rosa como conhecemos foi criado. Um mês oficializado como tempo de comemorar e criar ações voltadas para a luta contra o câncer de mama. Além da fita, inúmeras atividades como palestras, corridas, desfiles de moda com sobreviventes de câncer entre outras foram utilizadas como maneira de divulgar o trabalho.

No Brasil, a primeira iniciativa foi em 2002, com a iluminação rosa do obelisco do Ibirapuera. Na sequência, o movimento cresceu gradativamente e hoje é difundido tanto de maneira física, por ONGs, Hospitais especializados e outros, como também pela internet, com destaque a seus meios de comunicação social

 O que aprender com esse movimento?

 A maior lição que tiro dessa história toda é o poder que uma pessoa, inicialmente sozinha, tem quando realmente deseja fazer uma mudança. De uma promessa feita em um leito de morte, uma organização desse tamanho pode ser criada, e um mês inteiro lembrado como período de memória à essa luta

O objetivo maior do Outubro Rosa é a conscientização ao tratamento e prevenção do câncer de mama por TODOS os meses do ano. A estatística deste câncer é assustadora: 1 em 10 mulheres terá a doença (em média), e ainda assim vejo que a procura das mulheres por mamografia, por exemplo, é muito aquém do ideal.

Fica a lembrança do mês: repassem a mensagem de conscientização, se informem, se cuidem!

Bom outubro!

 

*Atenção! Abordarei este assunto de uma maneira bastante “genérica” e para adultos. Casos particulares de autonomia limitada, doenças de cunho psiquiátrico, etc, devem sempre ser discutidas individualmente. Na verdade, essa é uma situação onde o médico deve ser SEMPRE seu aliado na tomada de decisões, ok?

 

 

Um dos maiores obstáculos que vejo no consultório é quando na primeira consulta, antes do paciente entrar, recebo um bilhete da minha secretária dizendo que ele não sabe o seu diagnóstico e a família não quer que eu conte. O raciocínio, na maior parte das vezes, é de proteger o ente querido. “Ele não vai querer se tratar caso contemos a verdade”, dizem uns. “Ela vai entrar em depressão” dizem outros. “Ele já esta debilitado, se falarmos a verdade vai se entregar de vez…”. As justificativas são muitas, e todas fazem muito sentido, em um primeiro momento. O problema é o depois…

Voltemos à primeira consulta: o paciente está entrando em uma clínica ONCOLÓGICA. Na sala de espera estão pacientes que muitas vezes estão sem cabelo, conversando sobre sua quimioterapia ou sua doença. A não ser que a pessoa não saiba ler ou esteja completamente sem atenção, vai começar notando que algo estranho se passa.

Na consulta, eu, o médico, querendo evitar passar a “informação proibida”, sou impedido de adentrar em alguns assuntos mais específicos sobre a doença, mas cruciais para uma entrevista completa. Pior é quando a família fica dando sinais com as mãos ou tentando fazer com que eu entenda alguma leitura labial pelas costas da pessoa doente. A intenção é de se comunicar comigo “em segredo” para ajudar no meu entendimento da situação, mas acaba deixando tudo muito mais constrangedor e difícil.

Na hora de discutir o tratamento sou forçado a evitar a palavra “quimioterapia”, ainda que na hora de receber o remédio o paciente entraria no recinto cujo nome na porta é justamente esse: QUIMIOTERAPIA. Mais tarde podem ocorrer os efeitos colaterais: Náusea, perda de cabelos…

Descrevendo essa situação, fica claro que omitir ou mentir ao paciente é na melhor das hipóteses algo ineficaz e, na pior, algo que quebra a confiança da pessoa tanto no médico quanto na própria família. Imagine ter que passar por todo o tratamento sem saber se as pessoas que te amam estão escondendo algo de você. Não deve ser fácil.

É por isso que assumo algumas condutas muito claras logo de começo. Na primeira ou segunda consulta, sempre converso sobre a doença e o tratamento depois da anuência da família. O indivíduo doente PRECISA saber o mínimo necessário para que entenda sobre essas duas questões. Mais que isso vai depender somente dele. Alguns não querem saber nada, e por isso nada perguntam. Outros irão perguntar todos os detalhes que podem, inclusive, ser muito cruéis, e respeitarei a vontade deles. Isso é respeitar a autonomia.

Cada pessoa adulta deve ser responsável por suas próprias decisões e aceitar os riscos de cada uma. Se o ente querido não quiser se tratar, será uma escolha dele. Meu dever, e da família, será sempre o de trazer a maior quantidade de informações e suporte para que essa escolha seja a mais informada possível. Não podemos ir além disso.

Um período de reação à má notícia é normal e esperado. Tristeza, revolta, desânimo… são fases que o enfermo irá passar. É inevitável. Porém, se serve de consolo, as pessoas são muito mais fortes do que pensamos. Isso aprendi com minha especialidade. Findada esse período inicial, a maioria esmagadora das pessoas vai levantar a cabeça e encarar o problema de frente, sabendo que tem sua família e seu médico a seu lado.

 

O que são metástases hepáticas?

Posted: Setembro 23, 2013 in oncologia

Um dos motivos que mais levam pessoas a procurar meu blog é a necessidade de entender melhor o que são metástases. Já criei um post, há algum tempo, comentando de maneira “genérica” sobre esse problema. Recomendo que o leiam antes de seguir em frente neste texto. Aqui, discutirei mais sobre as metástases hepáticas, seguindo minha série de artigos em que abordarei as diversas manifestações dessa complicação do câncer.

Metástases hepáticas são definidas quando encontramos lesões no fígado. Geralmente são vistas por tomografias, ultrassom ou ressonância magnética. Em uma boa parte das vezes são encontradas ainda sem causar sintomas, quanto estamos investigando todo o corpo da pessoa que acabou de diagnosticar seu câncer. Essas alterações no fígado ocorrem quando o tumor, independente de sua origem, acaba por enviar células doentes para o corpo. É um dos principais órgãos a desenvolver metástases porque sempre tem um grande fluxo de sangue, além de outros motivos.

Trata-se, como toda situação de doença avançada, de um caso mais complicado. Muitas vezes a presença de metástases hepáticas significa que o tratamento desse problema não terá potencial curativo, mas sim de controle. Alguns casos são exceções. O mais clássico é o do câncer colorretal. Neste caso a remoção do tumor inicial, assim como o das lesões metastáticas no fígado trazem possibilidades concretas de cura.

Os sintomas da doença hepática variam bastante. Como comentei previamente, muitas vezes temos situações onde não há nenhum sintoma. Existem também os casos inespecíficos, como falta de apetite, mal estar, fraqueza, indisposição abdominal. Os casos mais sintomáticos podem se manifestar com icterícia (a pessoa fica amarela!), dor abdominal, náuseas e vômitos, entre outros eventos.

A icterícia em particular dificulta o tratamento com medicações, pois pode significar que o fígado esta com uma obstrução de suas vias de eliminação de excretas. Como muitos tratamentos dependem dessas vias para serem eliminados é necessário muito raciocínio por parte do médico para acertar o tipo de remédio e suas doses

Como tudo na oncologia, felizmente muito já se avançou no tratamento das doenças metastáticas. A cirurgia, que antigamente era praticamente proibida para esses casos, já se mostrou útil em várias situações. A melhora dos tratamentos sistêmicos (por exemplo a quimioterapia e agentes biológicos) aumenta em muito a sobrevida desses pacientes, assim como a qualidade de vida. Não podemos esquecer que práticas de prevenção cada vez mais eficazes permitem que diagnostiquemos as doenças antes que passem a apresentar esse tipo de complicação

O oncologista sempre deve ser o parceiro do paciente nesta situação. Nesse texto menciono a doença de uma maneira bastante geral, e o câncer é uma doença individual, variando muito de pessoa para pessoa. Segue meu conselho de sempre: CONVERSE com seu oncologista. Pergunte tudo para ele, não há pessoa mais habilitada para ajudar.

Um dos motivos que mais levam pessoas a procurar meu blog é a necessidade de entender melhor o que são metástases. Já criei um post, há algum tempo, comentando de maneira “genérica” sobre esse problema. Recomendo que o leiam antes de seguir em frente neste texto. Aqui, discutirei mais sobre as metástases ósseas, em um início de uma série de artigos em que abordarei as diversas manifestações dessa complicação do câncer.

Metástases ósseas são comuns no cotidiano do oncologista. Estão mais presentes em tipos específicos de doenças, como mama e próstata. Suas manifestações são das mais variadas, de silenciosas a completamente dramáticas. Independente de como se apresentam, sempre são indicativos de doença avançada, e por isso levadas muito à sério.

As consequências desse problema, especialmente quando não tratado, são principalmente a piora da qualidade e por vezes também do tempo de vida. De que maneira isso pode acontecer? Geralmente a manifestação mais comum é a dor, que pode ser no local da própria metástase, mas também pode ser uma dor irradiada. Simplificando, dor irradiada é aquela que se sente quando um nervo é comprometido e toda a área que ele “controla” fica afetada. Quem nunca viu alguém reclamando da dor do ciático?  A dor do ciático começa nas costas e corre para as pernas. É um princípio parecido.

Outra situação ainda mais grave são as fraturas. São chamadas de fraturas patológicas quando o osso quebra sem necessariamente ter sofrido um trauma. É o osso da perna quebrando na hora que a pessoa levanta, ou está descendo uma escada, por exemplo. Particularmente preocupante é se ocorre a fratura ou compressão da espinha dorsal, e com isso deixando a pessoa em risco até de ficar paraplégica.

O tratamento das metástases ósseas, como tudo em oncologia, é multidisciplinar. A cirurgia e a radioterapia podem ajudar a controlar a região doente do osso, especialmente se há risco de fraturas ou aumento de dor. A quimioterapia e a hormonioterapia ajudam a controlar a doença como um todo, reduzindo seu volume presente nos tecidos do corpo. Existem também medicações que ajudam a “fortalecer” os ossos, prevenindo eventos mais sérios no futuro. As medidas não médicas também são muito importantes, como por exemplo, a fisioterapia na reabilitação e prevenção.

Ter um câncer metastático sempre vai ser uma fonte extra de medo e ansiedade. Felizmente, com o que se tem de avanços médicos hoje em dia consegue-se um controle por vezes surpreendente de doenças que anos atrás eram consideradas “sem esperança.” Fica minha dica (a de sempre!) CONVERSE com seu oncologista. Ele está aí para isso. Com menos duvidas, mais preparados estamos para enfrentar a doença.

Hoje falarei sobre a Sra Wanda Rossi de Carvalho. Sei que não posso falar de pacientes com os nomes reais, mas não comentarei sobre a doença dela. Ela merece o crédito de sua história.

Dona Wanda tem 94 anos. É uma poetisa. Fez o hino de Bandeirantes (uma cidade aqui do lado de Londrina). Presidente da União Brasileira de Trovadores- seção Bandeirantes.

A cada 6 meses comparece no consultório. Reclama da demora (independente se estou atrasado ou não). Chama-me de bravo (por mais que me esforce para não ser, pelo menos não com ela…). Fala que está muito idosa, mas chega andando, a cabeça ótima.  Sempre me entrega um poema novo. Na hora de ir embora digo que o retorno é em 6 meses, e ela diz que vai estar morta até lá, porque está muito velhinha. Isso se repete já faz 6 anos.

Desta vez deu-me um poema sobre o natal, mesmo sendo na época em que estamos. Isso porque acha que não me verá mais. Igual o que sempre faz desde que a conheço…

Presente de Natal

Sonhei dar-te um presente,

Mas não sei o que darei…

Tens riqueza, tens amigos,

E até mesmo o que eu não sei.

Lembrei de dar-te a saudade

Mas com certeza já a tens,

Pensei na felicidade

Mas não mais a encontrei!

À venda estava a piedade

Mas esta sei que já tens…

E se eu te desse a verdade

Presente de grande poder.

São todos eles tão belos…

Se guardados com carinho,

Mesmo grande ou pequenino

Faz do teu sonho um menino!…

Um presente nobre me ocorre:

E se eu te desse o amor?

Dentro deles guardarias

Tudo bem que a vida for!!!

Obrigado pelo poema, dona Wanda. Até o próximo semestre.