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A relação entre médicos e pacientes vem mudando com o tempo. Na época de nossos avós ( e antes disso), o profissional da medicina era visto como um representante de Deus na terra, alguém cuja vontade e orientações nunca poderiam ser questionados, muito menos contestados. Era uma relação “vertical”, onde o médico ficava no topo, detentor de todo o saber, passando a verdade ao paciente, que humildemente a aceitava

Como disse, isso mudou, e muito. A relação agora se tornou “horizontal.” No mesmo nivel de igualdade que o profissional, o paciente deixou de ser um alvo de tratamento para ser um agente ativo na escolha e decisões que serão tomadas acerca de sua própria doença. Isso requer dos médicos toda uma bagagem de habilidades que muitos de nós não tem. Saber conversar, explicar a doença e o tratamento, além de adequar a linguagem e terminologias nem sempre é fácil, mas é muito necessário. Já do lado dos pacientes, estes têm que assumir um grau de responsabilidade sobre si e sobre as decisões a serem tomadas que nem sempre estão preparados

Para isso funcionar, é primordial a confiança. Os lados tem que estar afinados, tem que saber conversar e acertar suas diferenças, sabendo que ambos estarão trabalhando em prol da saúde daquele que está doente. Na oncologia isso fica extremamente evidente. O vinculo médico-paciente se torna extremamente forte, por vários motivos. O primeiro é pela freqüência que o oncologista e seu paciente se encontram, que costuma ser muito maior que nas outras especialidades. Por vezes atendo o mesmo paciente mais de uma vez na semana, por vários meses. O segundo fator é pela fragilidade emocional em que o paciente se encontra, e por isso tende a se apegar de maneira muito forte em seus pontos seguros, um deles sendo o médico

Por ser tão importante, a confiança fica sendo um pré-requisito para um tratamento bem sucedido. É inconcebível aceitar receber uma medicação capaz de induzir vômitos, imunodepressão, fraqueza (entre outros efeitos), vindo de alguém que não se pode confiar. Fica aqui minha sugestão: se não confia em seu oncologista, procure outro. Tenho certeza que você e ele estarão melhor assim.  Por outro lado, quando encontrar um profissional de confiança, tenha-o como uma referência, e evite “pular de galho em galho”, afinal quem tem muitos médicos não tem nenhum.

Como todas as relações humanas, existirão aquelas pessoas que por melhor que sejam não terão afinidade umas com as outras. Por mais que tente, o profissional não conseguirá agradar a todos. Do outro lado, existirão aqueles pacientes que são incapazes de confiar em seus médicos, independente da qualidade dos mesmos. Estes são pessoas em situação muito triste, pois situam-se em fase delicada e dependente, mas não conseguem se ligar a nenhum especialista, por mais necessário que seja

Fica então, novamente, a minha sugestão: em tratamentos longos e complexos o primeiro passo em busca de sucesso é procurar uma relação de confiança com seu oncologistal. Isso se cria com muita conversa, boa vontade e paciência!

eu ia escrever algo sobre a  situação de nosso ex vice-presidente, mas achei esse ótimo texto na web

http://tinyurl.com/69o9n5g

Os temas de bioética são sempre interessantes porque são fontes de muita discussão. Uma situação que o oncologista enfrenta diariamente é o embate entre a decisão médica e a autonomia do paciente.

Mas o que significa autonomia?  Segundo a Wikipédia: “Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.”

Na bioética, é um dos quatro princípios (autonomia, não-maleficiência, beneficiência e justiça). Significa que cada um é responsável por suas próprias decisões e tem autoridade sobre seu próprio corpo. É engraçado que esse conceito não existia nos primórdios da medicina, provavelmente pelo posto de “semi-deus” que o médico ocupava em tempos antigos, que tinha poder total sobre o paciente, que ocupava um papel ainda mais fragilizado que o de hoje. Por séculos, o médico foi o centro da medicina. Hoje, claramente é o paciente.

Apesar de extensamente discutida, ainda temos muitas dificuldades para lidar com questões que envolvam autonomia. Explico: muito aprendemos sobre as doenças. Passamos a entender de medicações, evolução natural de doenças, de indicações de tratamentos, nomes complicados e procedimentos mais complicados ainda. O que quase ninguém se preocupa em aprender é como lidar com PESSOAS.

Pense na seguinte situação. Você tem em suas mãos um tratamento que irá aumentar as chances de cura de um doente, ou ao menos aliviar seu sofrimento. Você tem trabalhos científicos, tem experiência e sabe que a indicação do que você está oferecendo é precisa. No consultório, você expõe sua proposta de tratamento para o paciente, com a certeza que ele alegremente irá concordar com sua idéia. Porém, nem sempre isso acontece. Por diversos motivos (medo, insegurança, religião, resignação, ignorância, família…) o paciente pode optar em não seguir sua proposta.

Em um primeiro momento você pode achar isso ridículo. Como recusar algo que você sabe que irá te fazer bem? Acontece que nem sempre é tão simples: Existirá aquele que não aceita uma cirurgia que o acabará prendendo a uma bolsa de colostomia. Outro não aceitará uma amputação. Outro não concordará com um tratamento quimioterápico que faz cair cabelos. A linha que cada um aceita cruzar não é do médico para traçar, e aí que vem o embate médico-paciente.

Se por um lado o médico sofre porque está vendo o índivíduo recusar uma proposta honesta de tratamento, por outro lado ele tem que entender que ele não é DONO da pessoa que está sentada à sua frente no consultório. Seu papel, no final das contas, é de ser seu parceiro, orientando-o e ajudando-o no que puder. As decisões sempre serão em conjunto, mas o “sim” ou o “não” finais sempre serão dados pelo paciente.

Com meus poucos anos na área, aprendi que temos muita força na hora de influenciar decisões, mesmo quando inicialmente a pessoa aparenta estar contra a sua proposta. É nossa função explicar todas as vantagens e conseqüências de cada caminho escolhido, guiando o paciente a escolher a melhor alternativa. No entanto, não podemos esquecer que não somos os donos da verdade, e por isso devemos dar apoio e compreensão, mesmo quando as decisões não são exatamente as que escolheríamos para nós mesmos.