Arquivo de Novembro, 2013

Um dos maiores problemas no câncer não é orgânico, mas sim o impacto psicológico causado, tanto no curto quanto no longo prazo. Apesar dos avanços da medicina no tratamento e na detecção precoce em oncologia, temos muitos vestígios da noção que nossos avós possuíam sobre a doença. Os antigos viam o câncer como “doença ruim”, sinônimo de morte, e o impacto cultural desta perepção é sentido de maneira constante em nosso cotidiano.

Como já mencionei em textos anteriores, dá-se o título “curado” para o paciente que sobreviveu 5 anos sem doença após o fim do tratamento. Esse tempo é  algo arbitrário, pois nunca ninguem está isento de riscos, seja ele um câncer que “volta”, ou uma doença “nova.” Basta estarmos vivos para termos chance de adoecer, é o que digo aos meus pacientes. No lado positivo, sabemos que estatisticamente após 5 anos o risco cai a seus níveis mais baixos, e sim, podemos afirmar com tranquilidade para a maioria de nossos pacientes que a cura ocorreu. O que ocorre depois dessa (boa) notícia?

A vida depois da cura não é a mesma que a antes da doença. Com meus (ainda) poucos anos na área, começo a ter meus primeiros pacientes se curando pela definição médica da palavra. Eles nao são as mesmas pessoas que conheci ha 6 anos atrás. São pessoas geralmente mais fortes, mais resolvidas, dão mais valor à sua vida. São tambem mais receosos, como uma “Cicatriz” que fica para sempre em sua mente e seu espírito. Em maior ou menor grau, todos eles se lembram do que passaram, e carregam eternamente consigo o peso dessa batalha.

Algumas cicatrizes orgânicas também existem, e variam de doença para doença, de pessoa para pessoa. Alguns exemplos corriqueiros: a sequela da mastectomia (a retirada da mama), que pode causar dor crônica e limitação de movimentos. A colostomia (o intestino ligado a uma bolsa que fica presa na parede do abdome), que traz problemas sociais e funcionais. Temos também a fadiga crônica, dor recorrente, inchaço, etc. Obviamente com o avanço dos tratamentos essas sequelas vem se reduzindo em frequencia e intensidade de maneira significativa, mas estao longe de desaparecer por completo

Como combater esses problemas de longo prazo? Para mim só ha uma resposta: Apoio multidisciplinar

Uma deficiência que temos no meio da saúde é o apoio de longo prazo para esses pacientes. Isso vale tanto para o sistema público quanto para o privado. Idealmente os sobreviventes deveriam ter a oportunidade de serem acompanhados por especialistas de maneira duradoura.  Conheço pessoas com colostomia há anos, que aprenderam  a se aceitar e a ter uma vida normal, apesar de sua nova condição. Tenho outros no entanto que sofrem demais com a bolsa. O auxilio tem que vir com uma equipe de saúde coesa. Enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos… todos tem uma parcela extremamente importante na reabilitação fisica e psicológica desses indivíduos que ja passaram por tantas batalhas.

O que quero concluir é que, embora a maior batalha ja tenha sido vencida, a guerra continua sendo travada dia a dia. O sobrevivente de câncer é um herói, só ele sabe o que teve que passar. Nós só podemos imaginar, e dar todo apoio que ele merece. A vida após o câncer existe, e pode ser muito boa, só precisamos todos trabalhar juntos para que isso aconteça.

Sobre o tratamento oral para câncer

Posted: Novembro 10, 2013 in oncologia

Esse artigo é da minha colega e farmacêutica Daniele Zampar, que pediu que eu postasse aqui no blog. É um texto especialmente importante pela época em que vivemos, com algumas mudanças relevantes para o início de 2014. Aqui vai:

 

Em 21/10/2013 tivemos o anúncio de que os usuários de planos de saúde terão direito a 37 medicamentos orais para o tratamento domiciliar de diferentes tipos de câncer a partir de Janeiro de 2014 (ver lista completa no link abaixo).

A saúde em nosso país tem inúmeras fragilidades, mas com a medida, espera-se resolver uma delas, que é a provisão de medicamentos de comprovado ganho terapêutico, bem como aqueles chamados de alvo molecular, que trazem menos efeitos colaterais por agirem especificamente nas células doentes e, por esta e outras razões, possuírem custos de aquisição elevados.

A provisão é essencial, mas igualmente importante é o acompanhamento destes pacientes durante todo o tratamento. Sugere-se neste momento, onde há preocupação pulsante da OMS com a segurança do paciente e escassez de recursos econômicos, que as operadoras de planos de saúde invistam na contratação de Farmacêuticos para dispensar estes medicamentos. Dispensar, por definição é: “ato profissional do farmacêutico de proporcionar um ou mais medicamentos a um paciente, como resposta à apresentação de uma prescrição elaborada por um profissional autorizado. Neste ato o farmacêutico informa e orienta o paciente sobre o uso adequado do medicamento”(1). Tal medida é econômica para as operadoras por garantir o uso correto de medicamentos tão caros! Na dispensação, o Farmacêutico reforça as orientações do prescritor e muitas vezes elucida os esquemas de tratamento com estes medicamentos.

Dados da OMS revelam que adesão ao tratamento medicamentoso é baixa, com taxa inferior a 60%(2). Adesão ao tratamento pode ser entendida como a extensão na qual o comportamento do paciente coincide com as orientações que tem por objetivo o controle ou a cura da doença(3). Os pacientes geralmente explicam sua resistência ao tratamento farmacológico e comportamental com as seguintes razões: não gostam de tomar remédios; não acreditam que seu diagnóstico é grave; não desejam ou não acreditam que são capazes de seguir as recomendações(4). Na dispensação, dependendo do tipo de serviço e estrutura, pode-se realizar a consulta farmacêutica para avaliar a adesão, fazer acompanhamento farmacoterapêutico e utilizar outras práticas clínicas que visam resolver a resistência e os comportamentos elencados acima com a terapia medicamentosa.

No cenário atual não podemos ser utópicos e imaginar que poderemos realizar todas as dispensações. Mas no caso dos medicamentos de que trata este texto, bem como a primeira vez que um paciente retira a insulina ou um medicamento para asma na UBS, aquele submetido à polifarmácia, o paciente de baixa adesão e outros casos especiais, devemos fazê-las e chamar de Dispensação Especializada. Esta deve ser realizada somente pelo Farmacêutico basicamente pelos seguintes motivos: complexidade da doença, esquemas de tratamento e/ou utilização de difícil compreensão para paciente e por envolver medicamentos de altíssimo custo.

O fornecimento do medicamento e o ato da entrega são imprescindíveis ao tratamento e devem ser considerados passos vitoriosos aos usuários dos planos de saúde. Mas há que se fazer a gestão clínica do tratamento, da dispensação do medicamento ao término de sua utilização. Não teremos resultados satisfatórios quando medicamentos são administrados concomitantemente e um inativa o outro, ou um medicamento diminui severamente a concentração sérica daquele que tem o objetivo de controlar a doença(5), ou ainda, se o medicamento fica apenas armazenado na casa do paciente porque este não compreendeu o esquema ou resiste ao tratamento, entre outros casos que poderiam ser citados.

Observação: No SUS, a consulta farmacêutica é um procedimento. Possui código e valor. Basta sistematizar as informações e trabalhar!

LINK: http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/arquivos/pdf/2013/Out/21/20131021_Rol2014_terapiaantineoplasicaoral.pdf

 

 

Daniele C O Zampar – CRF 11.509 PR

Farmacêutica Mestre UEL/Especialista em Oncologia SOBRAFO

Coordenadora Farmácia Clínica Somay Pós-Graduação

 

REFERÊNCIAS

1 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n. 3.916 de 30 de outubro de 1998. Aprova a Política Nacional de Medicamentos. Brasília (DF); 1998. [citado 2010 Mar 30]. Disponível em: <http://www.cff.org.br/userfiles/file/portarias/3916_gm.pdf&gt;.

2. World Health Organization, Sabaté E. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva; 2003. Disponível em: <www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_full_report.pdf>. Acesso 08 mar 2013.

3. McNabb WL. Adherence in diabetes: can we define it and can we measure it? Diabetes Care 1997; 20(2): 215-8.

4. Butterworth SW. Influencing patient adherence to treatment guidelines. J Manage Care Pharm 2008; 14(6 Suppl B): 21-24.

5. http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/BM/BM%5B34424-1-0%5D.PDF

Essa é uma das perguntas que mais ouço.

Nunca consegui explicar muito bem então vou tentar escrever o que são minhas respostas. Digam-me depois se deu para entender…

Um dos motivos que ouço de outros colegas é que em algum momento tiveram um parente com câncer e, com sua morte ou sofrimento, veio a vontade de combater a doença, da melhor maneira possível. A escolha pela oncologia seria algo coerente e justificado nesta situação. Minha avó materna morreu de câncer, mas tenho poucas recordações dela. Não conseguiria dizer que é por causa disso…

Outro motivo pelo qual alguns escolhem a área é o financeiro. Hoje a medicina como um todo é cada vez mais desvalorizada, mas especialidades muito específicas, como a oncologia, ainda tem um mercado interessante.

Pensando como nicho de trabalho, não há como discutir que o envelhecimento da população, por exemplo, é um indicador de um progressivo aumento das doenças crônicas, como o câncer. Na minha opinião, esse é o motivo mais triste de todos que possam levar a decisão de abraçar a profissão.

Por ser uma atuação emocionalmente muito impactante (tanto para o paciente quanto para o profissional) ,basear-se puramente em questões financeiras é um fator crítico para o surgimento de profissionais desgostosos, frios e pouco humanos. Oncologia precisa de pessoas com o perfil e motivação certa, e dinheiro por si só não é motivo suficiente.

É nessa questão do perfil que eu começo a achar os MEUS motivos.  O oncologista precisa ter a cabeça no lugar sem ser muito passional. Tem que entender o sofrimento do outro, exercitar a empatia ao mesmo tempo não sofrer junto, ou pelo menos na mesma intensidade, a dor do paciente e sua família. Tem que conseguir passar o dia em contato com muitas histórias pesadas e chegar em casa feliz, pronto para encontrar a família, passear com o cachorro, fazer coisas normais. 

Obviamente, todo mundo tem seus dias horrorosos. Somos afetados pelo que nos cerca, e às vezes, mesmo para nós que estamos “habituados”, alguma coisa passa por nossas defesas. Quem não consegue elaborar isso de maneira adequada pode ter grandes impactos em sua qualidade de vida, e as vezes até das pessoas à sua volta.

Consigo fazer isso tudo? A melhor resposta que tenho é “boa parte do tempo.” Tem gente que sabe fazer isso melhor que eu, outros muito menos. Não sei se isso é treino, convivência ou formação, mas fato é que (como todas as profissões) sempre existirão as pessoas que tem vocação para a área e as que não tem.

Por ultimo… Lembro-me da minha entrevista para a residência de oncologia em Porto Alegre. Meu antigo professor questionou os meus motivos, e sem pensar muito respondi algo mais ou menos assim:

O paciente oncológico revela o que há de melhor nas pessoas. É nele que você vê a maior coragem, a maior determinação, a maior honestidade. Não existe enganação, não existe dissimulação, mesmo que se tente. As emoções, boas e ruins, estão à mostra, e cada pequena vitória é motivo de comemorar.

Agora, com meus poucos 6 anos de atuação, talvez possa dizer mais – A oncologia mostra que às vezes, mesmo perdendo um paciente, você pode vencer. Fico extremamente feliz quando dou alta para uma pessoa, mas fico realmente emocionado quando uma família, ainda de luto pela perda de um ente querido, agradece por eu ter feito o meu melhor, como médico e ser humano. Isso não tem preço.