Arquivo de Fevereiro, 2011

Os temas de bioética são sempre interessantes porque são fontes de muita discussão. Uma situação que o oncologista enfrenta diariamente é o embate entre a decisão médica e a autonomia do paciente.

Mas o que significa autonomia?  Segundo a Wikipédia: “Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.”

Na bioética, é um dos quatro princípios (autonomia, não-maleficiência, beneficiência e justiça). Significa que cada um é responsável por suas próprias decisões e tem autoridade sobre seu próprio corpo. É engraçado que esse conceito não existia nos primórdios da medicina, provavelmente pelo posto de “semi-deus” que o médico ocupava em tempos antigos, que tinha poder total sobre o paciente, que ocupava um papel ainda mais fragilizado que o de hoje. Por séculos, o médico foi o centro da medicina. Hoje, claramente é o paciente.

Apesar de extensamente discutida, ainda temos muitas dificuldades para lidar com questões que envolvam autonomia. Explico: muito aprendemos sobre as doenças. Passamos a entender de medicações, evolução natural de doenças, de indicações de tratamentos, nomes complicados e procedimentos mais complicados ainda. O que quase ninguém se preocupa em aprender é como lidar com PESSOAS.

Pense na seguinte situação. Você tem em suas mãos um tratamento que irá aumentar as chances de cura de um doente, ou ao menos aliviar seu sofrimento. Você tem trabalhos científicos, tem experiência e sabe que a indicação do que você está oferecendo é precisa. No consultório, você expõe sua proposta de tratamento para o paciente, com a certeza que ele alegremente irá concordar com sua idéia. Porém, nem sempre isso acontece. Por diversos motivos (medo, insegurança, religião, resignação, ignorância, família…) o paciente pode optar em não seguir sua proposta.

Em um primeiro momento você pode achar isso ridículo. Como recusar algo que você sabe que irá te fazer bem? Acontece que nem sempre é tão simples: Existirá aquele que não aceita uma cirurgia que o acabará prendendo a uma bolsa de colostomia. Outro não aceitará uma amputação. Outro não concordará com um tratamento quimioterápico que faz cair cabelos. A linha que cada um aceita cruzar não é do médico para traçar, e aí que vem o embate médico-paciente.

Se por um lado o médico sofre porque está vendo o índivíduo recusar uma proposta honesta de tratamento, por outro lado ele tem que entender que ele não é DONO da pessoa que está sentada à sua frente no consultório. Seu papel, no final das contas, é de ser seu parceiro, orientando-o e ajudando-o no que puder. As decisões sempre serão em conjunto, mas o “sim” ou o “não” finais sempre serão dados pelo paciente.

Com meus poucos anos na área, aprendi que temos muita força na hora de influenciar decisões, mesmo quando inicialmente a pessoa aparenta estar contra a sua proposta. É nossa função explicar todas as vantagens e conseqüências de cada caminho escolhido, guiando o paciente a escolher a melhor alternativa. No entanto, não podemos esquecer que não somos os donos da verdade, e por isso devemos dar apoio e compreensão, mesmo quando as decisões não são exatamente as que escolheríamos para nós mesmos.

Nesse post, optei por discutir um assunto “genérico” do câncer. Se lermos sobre metástases na internet, independente de qual doença, estaremos expostos a muitas informações, algumas verdadeiras e outras falsas. Outras vezes, o leigo lê algo pertinente, mas que não se aplica à sua condição em especifico. Esse conhecimento geralmente só contribui para aumentar a confusão já presente na cabeça da pessoa.

Primeiramente, o que são metástases: são lesões neoplásicas (cancerosas), secundárias a um tumor que existe em outra parte do corpo. Dou um exemplo- a paciente que tem um câncer de mama (origem- mama), e que evoluiu com uma metástase óssea na coluna (sendo essa a lesão secundária). Essa metástase óssea é um tipo novo de câncer, que vem do osso? Não, a doença é a mesma, ela se originou da mama e por diversas vias ela acabou por surgir também nos ossos. Como que ela saiu de um lugar e foi para o outro? Existem diversas maneiras, mas mais comumente as células tumorais “viajam” pelo corpo através do sangue ou da linfa.

Exemplos de metástases são inúmeros. Praticamente qualquer órgão pode ser alvo de metástases, mas os mais comuns são fígado, ossos, pulmões, gânglios. Qualquer câncer pode causar metástases, mas o comportamento varia muito entre as doenças. Algumas patologias podem metastatizar facilmente, como no caso do câncer de pulmão de pequenas células. Outras raramente o fazem, como o carcinoma escamoso ou basocelular da pele. Para dificultar ainda mais, existem variâncias ainda dentro da mesma doença, como por exemplo os múltiplos tipos de câncer de mama, que vão desde os com alto potencial de metastatização a outros com praticamente nenhum poder de se espalhar.

A presença de lesões metastáticas evidentemente implica em um estágio mais avançado da doença, independente de qual sua origem. O que varia no entanto são os meios de tratamento para essa aflição. Existem metástases que são passiveis de serem operadas, e com isso livra-se o paciente por completo da doença tornando-se possível a cura. Muitas vezes no entanto isso não é possível, então foca-se no tratamento quimioterápico, especialmente com o intuito de controle da doença, mas sem uma possibilidade clara de cura definitiva. Existem exceções para essa afirmação, como as lesões metastáticas de tumores de testículo ou linfomas que felizmente somem definitivamente com a quimioterapia. Outra modalidade de tratamento é a radioterapia, usada principalmente para proporcionar um controle local da doença, como por exemplo proteger um osso doente da dor ou mesmo de eventos mais sérios como fraturas espontâneas.

Resumindo, são lesões que sempre devem ser levadas a sério, pois sua própria existência implica em uma doença mais avançada, mas nem por isso são sentenças clara de morte. Com o tempo, irei falando de doença a doença, e poderei ser mais específico. Por hora, tomem o que estou falando apenas como uma “introdução” ao assunto, e não como uma explicação para o que uma pessoa específica está sofrendo. SEMPRE deve-se perguntar ao médico assistente as duvidas que aparecerem, e só ele será capaz de explicar sobre a doença e seus possíveis tratamentos.